Depois de anos de resistência, o mercado internacional começa a se render à música popular brasileira
Arquivo FolhaHá anos batalhando no exterior, Vinícius Cantuária e Marcos Valle começam a ganhar projeção maior com a ajuda do produtor Arto LindsayArquivo FolhaCom discos lançados e relançados nos EUA há quase 10 anos, a carreira internacional de Tom Zé deve ir ainda mais longeArquivo FolhaO pernambucano Otto prepara um álbum de remixes que deve ser bem recebido pelo público interessado em música eletrônicaArquivo FolhaBebel Gilberto terá novo disco lançado nos EUA e na Europa graças a acordo de gravadoras
Guto Barra
Planet Pop/AE
A música brasileira atingiu um novo patamar no mercado internacional no ano passado. Da premiação de Gilberto Gil com o Grammy ao sucesso de Tom Zé nos Estados Unidos, uma série de artistas conseguiu exposição inédita no mercado, que passou a apostar na música nacional como uma fatia específica da indústria. Impulsionado também pela explosão latina entre os norte-americanos e pela ‘‘descoberta’’ dos Mutantes por nomes de peso do pop, a bossa nova, a Tropicália e seus casamentos com gêneros como a eletrônica deixaram a categoria de world music para conquistar espaço próprio, com pratelerias cada vez maiores nas lojas de discos.
O que aconteceu no mercado norte-americano, no ano passado, na verdade foi o resultado de anos de dedicação de uma série de artistas e ‘‘investidores’’. Tom Zé, por exemplo, que desde o início da década teve seus discos lançados nos Estados Unidos por David Byrne, finalmente pôde capitalizar o esforço fazendo uma bem-sucedida turnê de seis cidades no país.
O disco ‘‘Com Defeito de Fabricação’’ conquistou um bom público graças ao lento, mas consistente, trabalho de divulgação feito com a ajuda do circuito de rádios universitárias. O músico fica com o mérito de ter cruzado as fronteiras do público ‘‘brasileiro-que-mora-no-exterior’’ (que acompanha, em geral, apresentações de Caetano Veloso e Gilberto Gil). A carreira de Tom Zé nos Estados Unidos ainda deve ir bem mais longe.
Em menor escala, mas continuando a movimentação de mostrar novas sonoridades aos gringos, Otto também fez sua parte. Com uma apresentação no festival Summer Stage, do Central Park (que ocorre todos os anos durante o verão, em Nova York), e outra em uma loja de discos, o cantor e percussionista pernambucano despertou a curiosidade de um público interessado em electronica e esquisitices vindas de longe. O álbum de remixes que ele lança em breve tem tudo para ganhar espaço nos clubes da cidade.
Os Mutantes, por sua vez, tiveram sua glória. Apontados como influência há vários anos por nomes como os Beastie Boys, Beck, Cake e até o R.E.M., o grupo teve três de seus discos lançados por um selo independente, mais uma coletânea organizada por David Byrne em parceria com o produtor e A&R brasileiro Béco Dranoff.
Todos os lançamentos tiveram ampla cobertura da imprensa, que aponta o grupo como uma das coisas mais inovadoras da música mundial em todos os tempos. O hype deve impulsionar, finalmente, o lançamento do disco ‘‘Technicolor’’, gravado na França, com músicas em inglês, que nunca saiu da gaveta.
Dranoff se consagra como um dos grandes embaixadores da nova música brasileira nos Estados Unidos e na Europa. Responsável por projetos como ‘‘Red Hot + Rio’’, ‘‘Red Hot + Lisbon’’ e a trilha sonora do filme ‘‘Próxima Parada: Wonderland’’, entre outros, ele inaugurou, há um ano, a Ziriguiboom Discos, dedicada a explorar os novos caminhos da música brasileira. Associada à conceituada Crammed na Europa e à Six Degrees nos Estados Unidos, a gravadora lançou a coletânea ‘‘Brasil 2 Mil’’, o disco de remixes ‘‘Bossa Cuca Nova’’, o primeiro disco-solo do produtor croata Suba (que morreu em novembro) e o disco de estréia do grupo Zuco 103, baseado na Holanda, liderado pela cantora fluminense Lilian Vieira.
Os próximos lançamentos da Ziriguiboom são o álbum de Bebel Gilberto e o segundo volume de ‘‘Brasil 2 Mil’’. Em parceria com a Caipirinha Music (da cineasta brasileira Iara Lee), ele também acaba de produzir a primeira coletânea internacional de música eletrônica brasileira, ‘‘Caipiríssima’’, que chega em fevereiro ao mercado. O disco contém faixas de nomes como Ramilson Maia, DJ Dolores, Cynthia Z, Mestre Ambrósio Underground e Brazilian Underground Movement, entre outros.
Enquanto isso, selos independentes na Europa e nos Estados Unidos dedicam-se a explorar as misturas de novos estilos com a música brasileira. Impulsionada pelo trabalho de nomes como Fantastic Plastic Machine, Thievery Corporation e Cibo Matto, para citar alguns, a onda foi descoberta por gravadoras que vêm pesquisando e lançando faixas influenciadas por samba ou bossa nova ou de artistas que buscam inspiração no Brasil. A tendência também abre caminho para artistas como Vinícius Cantuária e Marcos Valle, que há alguns anos trabalham no mercado internacional e agora vêm ganhando reconhecimento, graças, também, ao apoio de Arto Lindsay, cada vez mais elogiado pela crítica dos EUA.
Ao contrário da explosão latina (que levou ao estrelato nomes como Ricky Martin, Jennifer Lopez e Marc Anthony), a onda brasileira é discreta e, por isso, tem a possibilidade de durar mais. A – pouco alardeada – inclusão da categoria brasileira no Grammy Latino, a continuação da divulgação dos artistas e a popularização de noites temáticas em clubes de cidades como Nova York, Paris e Londres, podem ajudar a colocar a música verde-e-amarela em uma posição ainda mais privilegiada no mercado internacional.
Segundo a opinião de especialistas do mercado, o Brasil não é apenas uma onda passageira no mundo. Ainda assim, as gravadoras nacionais ainda não perceberam todo o potencial deste imenso mercado.