ONDA QUE FICOU
Nelson Sato
De Londrina
O pontapé foi a trilha sonora de Pulp Fiction. Do estouro do filme de Quentin Tarantino para cá, o revival em torno da surf music não para de desencavar tesouros esquecidos.
No Brasil, a gravadora Abril Music vem abastecendo as lojas com preciosidades do gênero desde o começo desse ano. O terceiro pacote saiu há pouco trazendo as coletâneas Big Surf Hits e Wild Surf!, ambas pertencentes ao catálogo do selo norte-americano Del-Fi Records, principal matriz das bandas de música praieira dos anos 50 e 60.
Foi a Del-Fi, vale lembrar, que cedeu a maioria das faixas para a trilha de Tarantino. Algumas delas, aliás, batem ponto nos dois CDs lançados agora por aqui. É o caso de Surf Rider, do grupo The Lively Ones, e Bullwinkle Pt. II, da banda The Centurions.
Os dois discos cheiram a baú empoeirado, recuperando obscuras guitarras de garagem que ninguém mais ouvia falar. Big Surf Hits foi lançado originalmente em 1964. Wild Surf! saiu dois anos depois. Na época, o estilo mandava as cartas nas paradas, seguindo o sucesso nas telas de filmes que retratavam verões de amor adolescente.
A coisa toda teria começado com o legendário Dick Dale. Segundo contam, ele foi o primeiro a dar forma à vertente impondo nas guitarras um som vibrante e climático que sugeria a emoção de surfar sobre as ondas. Ele, aliás, voltou a tocar pelo mundo depois de amargar um longo período de ostracismo impulsionado pela onda retrô.
As duas coletâneas da Abril Music privilegiam a surf music instrumental, com a única exceção de Original Surfer Stomp, cantada pelo The Surf Stompers. A faixa emblemática é Blue Surf, na qual o The Impacts insere barulho de mar entre acordes indolentes. Quase todas as músicas trazem saxofone nos arranjos, ora alternando solos com as guitarras ora apenas pontuando a melodia.
Embora não seja um CD duplo, Wild Surf! reúne 24 faixas. Apresenta míni-antologias dos já citados The Lively Ones, The Centurions e The Impacts e ainda dos grupos The Sentinals, The Surfmen, The Surfaris e The Pharos cada um contemplado com quatro ou cinco composições. Dave Myers & The Surftones com duas músicas e The Gonzos com uma faixa completam o repertório.
O disco é uma verdadeira aula de surf music instrumental estalando guitarras frenéticas, baixos marcantes e batidas rápidas. O gênero é mostrado em todas as suas características, com variações aqui e ali, como a queda para o twist em Wipeout e os acordes de trilha de faroeste em Exodus, ambas dos The Lively Ones.
Big Surf Hits, por sua vez, repete vários grupos da outra coletânea, mas empolga mesmo quando entram em cena outros representantes do estilo. The Surf Stompers surpreende com a jazzística Green Onios, gravada ao vivo com direito a gritinhos da platéia. Não fica atrás o The Surf Mariachis, com a levada dançante de Watermelon Man. São as duas faixas que fecham o disco.
Mas é só uma uma pausa. O catálogo da Del-Fi Records cobre o período que vai de 1959 a 1966. A Abril Music só começou a explorá-lo.Mais dois CDs levam adiante o revival em torno da surf music instrumental
ReproduçãoA surf music foi imortalizada como a trilha sonora das praias nos anos 50 e 60ReproduçãoBig Surf Hits: reúne composições de quem estava literalmente por cima da ondaReproduçãoWild Surf!: traz míni-antologias de bandas da primeira metade dos anos 60





