Nelson Sato
De Londrina
O baú dos Mutantes foi escancarado outra vez. Depois de virar cult nos Estados Unidos, as canções da banda mais inventiva do rock nacional estão de volta às lojas a bordo da coletânea World Psychedelic Classics 1: Brazil – The Best of Os Mutantes: Everything Is Possible!, lançado pela Universal.
É o pontapé inicial para um novo revival em torno do trio, que finalmente terá o álbum inédito Technicolor lançado por aqui. Segundo a assessoria de imprensa da gravadora, o disco vai pular dos fornos ainda neste final de ano. Para os antigos fãs, a notícia é de soltar fogos só perdendo em comemoração para um suposto e improvável anúncio da reconciliação de Rita Lee, Arnaldo e Sérgio Baptista.
Para a garotada de hoje, porém, a coletânea já é motivo de festa. Afinal, traz um repertório precioso reunindo faixas extraídas dos cinco primeiros trabalhos do grupo – Os Mutantes (1968), Mutantes (1969), A Divina Comédia (1970), Jardim Elétrico (1971) e Mutantes e seus Cometas no País dos Baurets (1972).
O período contemplado é justamente aquele da explosão criativa, marcada pela formação original, participação no movimento tropicalista e fruição sem freios de substâncias proibidas. Entre as faixas selecionadas para o CD figuram desde a popenta ‘‘Ando Meio Desligado’’ à soturna ‘‘Dia 36’’ passando pela bossanovística ‘‘Baby’’ (na versão em inglês) e a psicodélica ‘‘Fuga nº 2’’.
Passada essa fase, os Mutantes enveredaram pelo rock progressivo gerando atritos internos, a ponto de Rita Lee tirar o time em 1972 e Arnaldo pular fora no ano seguinte. Ficou Sergio, que arrastou a banda com outros integrantes até o final da década – mas aí, já distanciado da anarquia sonora dos anos loucos.
David Byrne, atento, excluiu tudo que não fosse da boa safra para compor a coletânea. O disco saiu em junho nos Estados Unidos pelo selo Luaka Bop, de David Byrne, quase simultaneamente ao lançamento dos três primeiros títulos da banda pelo selo (também norte-americano) Omplatten.
A fornada intensificou o culto gringo aos Mutantes, cujo experimentalismo psicodédico não só foi assunto nas páginas das revistas Rolling Stone, Spin e Magnet (esta, a bíblia dos alternativos) como vem conquistando simpatizantes no mundo pop ao longo da década incluindo Kurt Cobain, Beck, Beastie Boys, Stereolab e Fugazi.
Das 14 músicas garimpadas para o CD, seis saíram do primeiro álbum da banda. Narrar a história desse LP de estréia, é se afogar numa avalanche de episódios pitorescos, que marcariam também os álbuns posteriores e toda a trajetória do grupo. Conta-se, por exemplo, que na semana de seu lançamento o pai de Arnaldo e Sergio teria convocado um batalhão de garotos para percorrer as lojas de São Paulo perguntando sobre o disco.
E mais: teria inclusive colocado a mão no bolso para que eles comprassem algumas cópias. A intenção era badalar o nome da banda entre os lojistas. Também antológica e digna de figurar nos anais do pop nacional, é a arrastada novela envolvendo Technicolor, o tal álbum inédito. O disco foi gravado em Paris, em 1971, durante os intervalos da segunda temporada de shows do grupo na Europa.
A idéia partiu da Polydor britânica, que queria lançar o LP na Inglaterra e em seguida em todo o velho continente. Na época, os Mutantes já ostentavam algum prestígio, notadamente depois de ter se apresentado no MIDEM (Mercado Internacional de Discos e Editores Musicais) em 1969. Na ocasião, os meninos foram destaque no ‘‘Nice Martin’’, o jornal de maior circulação no sul da França: ‘‘É preciso ouvi-los para acreditar que os Beatles não estão sozinhos na vanguarda da moderna música popular’’, dizia o artigo.
Dois anos depois, lá estavam eles tirando fotos ao lado da Torre Eiffel e se divertindo no estúdio de gravação em companhia do produtor inglês Carl Olms. As sessões duraram uma semana. A banda voltou ao Brasil com a promessa do lançamento do disco. Os tapes, porém, foram parar nos arquivos permanecendo até hoje longe do alcance do público.
A desculpa alegada é que a mistura de inglês, português e francês usada nas letras não teria agradado ao produtor. E para piorar as coisas, a filial brasileira da gravadora tampouco teria demonstrado interesse pelo projeto. Só há 4 anos, quando o jornalista Carlos Calado colhia informações para a biografia da banda (o livro ‘‘A Divina Comédia dos Mutantes’’ saiu em 95 pela editora 34), é que a existência dessa raridade veio à tona.
De lá para cá, muita gente comprou a briga para lançar o material, que por sua vez sempre empacou em impasses burocráticos. É essa relíquia, da qual a coletânea pinçou duas canções (‘‘Baby’’ e ‘‘El Justiciero’’), que vai emergir das teias de aranha nesta temporada.Há três meses, os norte-americanos renderam-se a uma coletânea dos Mutantes que chega agora às lojas do Brasil
Mutantes: lançamento do CD é motivo de festa para a garotada já que o disco traz um repertório preciosoReproduçãoColetânea foi lançada primeiro nos Estados Unidos pelo selo Luaka Bop, de David Byrne

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