A praia catarinense de Itapema já foi conhecida apenas como vizinha ou alternativa ‘‘pobre’’ a Camboriú, onde há disputa por um palmo de espaço na areia. Nesta temporada, porém, quem frequenta o balneário vê a praia e a própria cidade mais limpas e organizadas, mas principalmente confere o avanço de um projeto cultural (e dele participa) liderado pela municipalidade. O projeto resulta de uma nova visão da administração pública, do esforço da equipe a quem foi confiada a gerência do setor e da integração comunitária.
As ações começam nas escolas, passam por igrejas e afloram em um verdadeiro templo para a manifestação artístico-cultural, uma praça no coração da cidade, com concha acústica e outros equipamentos. Em torno da concha, arquibancadas feitas com grandes pedras talhadas recebem o público para as apresentações. Nada de grupinhos ‘‘importados’’, ao estilo ‘‘É o tchan’’: é arte e cultura feitas pela gente da terra, principalmente crianças, muitas crianças, e muita música e canto.
Estão organizados em Itapema dez grupos, entre corais e bandas (número significativo, em uma cidade com 18 mil habitantes), que cantam e tocam isoladamente durante a maior parte do ano, mas se reúnem na temporada de praia para apresentações - para o delírio da população local e dos visitantes. Na atual temporada, as apresentações começaram em dezembro, marcando todo o período natalino, e prosseguirão até o final do verão. A principal atração é o coral Vivaz, com cerca de cem escolares na faixa de 7 a 15 anos.
Quem estiver em Itapema nas próximas semanas, poderá assistir as apresentações, iniciadas em dezembro, do ‘‘Show Vivaz in Concert’’, um passeio pelo mundo (musical, de coreografias e alegorias), que começa na América do Norte, em 1912, aproveitando o fato de, naquele ano, ter afundado o navio ‘‘Titanic’’ e, hoje, ser sucesso o filme e sua música. A seguir, uma visita aos períodos subsequentes e ao folclore de países, como Portugal, com seus fados, ou a ilha de Açores, cuja cultura chegou a Santa Catarina com as danças, o reisado e o boi mamão.
Singrando o Atlântico para o lado de cá, o Vivaz passeia pela Argentina e homenageia Evita Perón, falecida em 52 e endeusada pelos descamisados de seu país. ‘‘Não chores por mim, Argentina’’, cantada pelo coral, embala brasileiros e os hermanos argentinos que passam temporada na praia. A seguir, é a vez dos anos 60 no Brasil - tempos da brilhantina, da lambreta - lembrados pelo Vivaz com um pout-porri que começa com ‘‘Broto Legal’’.
Em 61, porém, a ‘‘música’’ que ecoava em todo o mundo era a das bombas brutalmente despejadas pelos norte-americanos sobre o povo do Vietnã. ‘‘Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones...’’, canta o Vivaz, chorando o soldado que teve que trocar a guitarra pela metralha e o coração por medalhas de guerra. Violência por violência, o Vivaz aproveita para lembrar do Peru e do que restou da cultura inca, dizimada pelos bacamartes espanhóis. O som é ‘‘El Condor Pasa’’, com vozes e flauta.
De volta ao Brasil, a lembrança de Carmem Miranda, ou a ‘‘Aquarela do Brasil’’ terra boa e gostosa da morena sestrosa, e ‘‘Festa no Interior’’ onde arde a fogueira que esquenta a vida inteira. Depois de outras incursões, o Vivaz fecha o espetáculo com ‘‘Oh, Happy Day’’, desejando felicidade geral. Fecha, não, porque o público nas arquibancadas pede insistentemente para o espetáculo continuar, e o coral atende, empolgado.
O ‘‘Show Vivaz in Concert’’ tem mulheres jovens no comando, como a produtora Giselda Storck, 36 anos, diretora de Cultura da secretaria liderada por Rita Wollinger, 39. A regente do coral é Jeane de Souza, 22, e sua irmã, Queila de Souza, 24 anos, é a tecladista. Os artistas mesmo são as crianças e adolescentes do Vivaz. Nas escolas, eles se esforçam para ter um belo boletim, sem o qual não são aceitos no coral.
Além das boas notas, os escolares precisam fazer testes vocais e têm aferido seu desenvolvimento motor - exigido pelas coreografias do espetáculo. O coral existe há menos de 2 anos, mas agora é o tempo de sua consolidação, inclusive porque hoje há um grande palco para suas apresentações. Segundo a secretária Rita Wollinger, o projeto cultural desenvolvido em Itapema tem custo praticamente zero para a prefeitura Município, e integra outro maior de ação educacional do Município que, pelos resultados obtidos, recebe verbas do programa federal ‘‘Criança Cidad㒒.O coral Vivaz é um dos responsáveis pela animação de Itapema nesta temporada. Apresentações acontecem na praça central (abaixo)Paulo Pegoraro

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