"Omaggio a Federico e Giulietta" é homenagem de Caetano ao mestre italiano
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terça-feira, 21 de setembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 22 (AE) - Livre é somente o que é neutro, diz o narrador de "Doutor Fausto", de Thomas Mann, sobre a música de Adrian Leverkuhn, seu biografado. "O característico jamais é livre, porque foi cunhado, determinado, ligado", completa. O músico, contrariando a expectativa do mestre, levaria sua cidade consigo. Fellini levou Rimini. Caetano Veloso leva a praça - com os alto-falantes, a igreja, o cinema - de Santo Amaro da Purificação.
Pelos alto-falantes ouviu João Gilberto cantando "Chega de Saudade"; no cinema assistiu a seu primeiro Fellini - e ouviu seu primeiro Nino Rota. Cunharia, muitos anos depois, uma feliz definição para a música do compositor italiano: suas músicas se fazem ouvir não como se dando a conhecer, mas como se o ouvinte as recordasse.
Foi com a intenção de reconstruir a atmosfera de sua adolescência que Caetano Veloso selecionou o repertório do espetáculo "Omaggio a Federico e Giulietta". Maddalena Fellini
irmã do cineasta, fez o convite, em nome da Fundação Fellini. A gravação, ao vivo, foi feita em três dias - de 29 a 30 de outubro de 1997, no Teatro Nuovo, em Rimini.
O disco não foi lançado antes porque o intérprete teve problemas com a voz. Pretendia remontar o show, no Brasil, para enfim gravá-lo. Acabou concluindo que não reproduziria a atmosfera daquelas três apresentações italianas. "Omaggio a Federico e Giulietta" é anterior à atual e detestável mania de cantores nacionais de gravar em italiano (de Zizi Possi a Agnaldo Rayol). E, por tudo o que foi dito (e por muito mais), não pode ser incluído no modismo. Nem deverá, pelo grau de sofisticação, pegar carona nele.
Caetano colecionou as peças que erguem sua catedral afetiva musical e cabem nela tanto Vicente Celestino quanto Nino Rota e Tom Jobim. A regravação, aqui, de "Coração Materno", de Celestino, funciona de forma diferente daquela da época do tropicalismo: o que foi ousadia estética (ousadia e desafio) aparece como matéria sentimental. Jogam-se jogos diferentes com as mesmas pedras.
Quem está por volta dos 50 anos ouviu Coração Materno, na infância e na adolescência, e poderia propor ainda outros quebra-cabeça. O de Caetano pode soar, em alguns momentos, redundante - nas regravações de "Chega de Saudade, Coração Vagabundo, Cajuína". Mas se a primeira, de Jobim e Vinícius, teve tanta influência na formação do músico, as outras são evocações fellinianas. Frases como "meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim" ou "existirmos - a que será que se destina?" guardam irrefutáveis dores de que o cineasta italiano compartilhava.
Depois, é uma montagem extremamente pessoal e toca a música dos filmes de Fellini direta e indiretamente. Diretamente em músicas como "Que não se Vê" (Como tu mi Vuoui, de Nino Rota e T. Amurri, versão para o português de Caetano), tema do palhaço de "A Doce Vida" à qual o intérprete empresta o melhor de sua emoção de cantor; ou "Gelsomina", de Rota e Galdieri, com e sem a letra, silabada, pungente.
O mambo "Patrícia", de Perez Prado, estava para "A Doce Vida", como "Lets Face the Music and Dance", de Irving Berlin, serve para a triste dança de Marcello Mastroianni e Giulietta Masina em "Ginger e Fred". O fado "Coimbra", Caetano lembra no longo texto que acompanha o disco, aparece numa cena de "A Trapaça". Outras associações são mais complexas. "Estava certo cantar também Trilhos Urbanos, pois era preciso pôr tudo na perspectiva de minha meninice em Santo Amaro", escreve o compositor.
A visão pessoal indicou a inclusão de "Chora Tua Tristeza", uma bossa nova de Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini, composta pelo pianista quando tinha 17 anos e considerada pelo intérprete "obra menor do movimento". Mas ele a canta como "um redentor de toda sentimentalidade", razão bastante para legitimar todo o disco, se não houvesse outras razões - como a rara beleza do todo e a oportunidade de visitar a intimidade sentimental de um grande autor. Omaggio a Federico e Giulietta. Caetano Veloso. Universal. Preço médio: R$ 18


