Ela andava pelas ladeiras de Ouro Preto, recebia turistas e contava histórias e mais histórias sobre as Minas Gerais e o Brasil. Esta era Olympia, personagem do espetáculo homônimo que o Grupo de Teatro Andante, de Belo Horizonte, apresenta hoje e amanhã no Festival Internacional de Londrina (Filo). A montagem, com a atriz Ângela Mourão, poderá ser vista pelo público às 22 horas, no Núcleo I.
Conhecida como Sinhá Olympia (1889-1976), a personagem real viveu em Ouro Preto e se tornou popular como uma espécie de anfitriã da cidade. Taxada como louca ou, no mínimo, esquisita, essa mulher ficou conhecida de muitos turistas, gente famosa e, claro, dos mineiros. Como foi o caso do diretor Marcelo Bondes, a atriz Ângela Mourão e a escritora Guiomar de Grammont, que na infância também ouviram as histórias de Olympia.
Vinte e cinco anos depois da morte da lendária figura, a história de sua vida voltou a rondar a memória de Marcelo, Ângela e Guiomar. ‘‘Ângela tinha vontade de trabalhar três facetas do fazer teatral: a narração, a personagem e a própria atriz. Começamos então a pesquisar que história contar a partir dessa proposição cênica. Foi quando procuramos a escritora Guiomar de Grammont para trabalhar em um texto sobre Olympia’’, conta Marcelo Bones.
O diretor relembra que a personagem foi uma pessoa importante no contexto histórico de Ouro Preto, mesmo que não faça parte da história oficial do município. ‘‘Ela saiu às ruas e se auto-denominou anfitriã dos turistas. Contava histórias e se inseria nelas. Dizia, por exemplo, ter sido amante de D. Pedro II ou então que a responsável por reformas das igrejas da cidade’’.
Delírios à parte, Bones acredita haver um grau de verdade grande nas histórias de Olympia. Uma pessoa importante na vida dessa mulher foi o padre Simões, da Igreja do Pillar, que acompanhou e zelou pela sua vida. Para ele, louca ela não era, mas tinha lá as suas esquisitices.
Vinda de uma família nobre, Olympia foi para as ruas por volta dos 40 anos. ‘‘Dizem que foi depois que ela se apaixonou por um rapaz de poder aquisitivo menor que o da sua família e o pai não deixou que o namoro vingasse’’, conta o diretor. ‘‘Ela então foi para a rua, buscando sua realização, sua salvação’’.
No início, a personagem usava um cajado, chapéu e roupas ainda sóbrias. Aos poucos foi colocando penduricalhos nas vestimentas, até se transformar numa figura que atraía a atenção das pessoas, por curiosidade ou mesmo por chacota. Outra ‘‘lenda’’ em torno de Olympia é que o noivo teria enviado a ela abacates – fruta de sua preferência – para encerrar o namoro. Depois disso começaram a surgir as esquisitices.
Marcelo Bones conta que todas as histórias da sinhá faziam referências ao País. ‘‘Ela se identificava com personagens da Inconfidência Mineira, do Descobrimento do Brasil, misturava tudo, se incluía no contexto, fazia uma releitura e transformava em outra história’’.
A personagem Olympia é uma das instâncias do espetáculo, que também inclui a narradora, a atriz e a máscara. ‘‘A fragmentação da loucura dela serve de base para o espetáculo, que também é todo fragmentado’’, comenta Bones. Já a narradora é a figura que conta a história, tenta entender o significado das coisas e descobrir um pouco mais sobre Olympia. A atriz tem como mote a personagem, se identificando com ela enquanto mulher, com suas angústias, com sensibilidade. As máscaras marcam o delírio da personagem.
Neste espetáculo, o Grupo de Teatro Andante busca discutir a questão da loucura, do que é verdade, do que é história ou não, do que é arte. ‘‘Olympia fazia teatro?’’, questiona Bones. ‘‘Ela também criava o seu estado de representação...’’
Por fim, a atriz Ângela Mourão busca a cumplicidade do público, ao estabelecer uma comunicação direta com os espectadores, como fazia Sinhá Olympia com sua platéia na Praça Tiradentes.
SERVIÇO:
‘‘Olympia’’ – Espetáculo do Grupo de Teatro Andante, de Belo Horizonte (MG). Texto: Guiomar de Grammont. Direção: Marcelo Bones. Dramaturgia: Bones e Ângela Mourão. Atuação, concepção dramatúrgica e cenográfica: Ângela Mourão. Figurino e execução cenográfica: Wesley Simões. Criação e confecção de máscaras: Márcia Torquato. Música original: Chiquinho de Assis. Iluminação: Chico Pelúcio e equipe do Galpão Cine Horto. Duração: uma hora.

mockup