Olívia Hime
canta Chiquinha
Gonzaga
Intérprete grava disco em que melodias da
autora ganha letras de compositores atuais
Ranulfo Pedreiro
ReproduçãoOlívia Hime: ‘‘Foi um trabalho prazeroso’’
As pesquisas musicais norteiam há tempos o trabalho de Olívia Hime, uma cantora com currículo incomum - que inclui aprendizado de acordeon, piano, flauta e violão. Quando optou pela voz, Hime passou a frequentar aulas específicas que se prolongaram por oito anos. Ao mesmo tempo, ela se aprofundava em obras de poetas e compositores.
Os estudos bateram de frente com Chiquinha Gonzaga. A intérprete mergulhou durante seis anos na biografia da compositora, desenterrando quase 250 partituras pertencentes ao arquivo da SBAT, a Sociedade Brasileira dos Autores Teatrais, no Rio de Janeiro.
Da SBAT, Hime selecionou 11 melodias - algumas partituras ainda estavam manuscritas -, que ganharam letra no disco ‘‘Serenata de uma Mulher - Olívia Hime canta Chiquinha Gonzaga’’, lançado pela Kuarup. Entre os letristas que se tornaram parceiros de Gonzaga, estão Paulo César Pinheiro, Joyce, Ana Terra, Abel Silva, Hermínio Bello de Carvalho e a própria Olívia Hime.
Algumas músicas receberam novo nome. É o caso da modinha ‘‘Lua Branca’’, que se tornou ‘‘Serenata de uma Mulher’’. A polca ‘‘O Poeta e a Maestrina’’ foi editada em 1894 como ‘‘Anita’’. Do repertório, nove composições de Gonzaga são inéditas em disco.
O CD segue o caminho inverso de alguns lançamentos anteriores de Olívia Hime. Ela já havia musicado poemas de Fernando Pessoa e Manuel Bandeira, quando decidiu dedicar um álbum a Chiquinha Gonzaga. ‘‘Há cerca de seis anos eu venho fazendo uma grande pesquisa sobre a autora, e tinha muita coisa desconhecida. Resolvi selecionar algumas partituras, foi um trabalho prazeroso’’, comenta Hime, em entrevista por telefone à Folha2.
O disco ganhou, no encarte, elogios de Edinha Diniz - autora da biografia ‘‘Chiquinha Gonzaga, Uma História de Vida’’ - e do pesquisador Sérgio Cabral, além da participação de Chico Buarque na faixa ‘‘O Poeta e a Maestrina’’. O lançamento tem apoio do projeto Rioarte, da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro.
‘‘O Chico estava muito ocupado e não pode fazer uma letra, o Gilberto Gil também, na época estava na Copa do Mundo. Eu pensei nas pessoas que gostariam de fazer o trabalho e ofereci alguns poemas a elas. O resultado ficou muito bom, gostei muito de fazer esse disco’’, ressalta a intérprete. Apesar do esmero da produção, o CD ressuscita o questionamento sobre a interferência na obra de autores falecidos.
Mesmo assim, o trabalho de Olívia Hime não perde significado. Sua qualidade divulga melodias de uma compositora que ignorou preconceitos de época, conviveu com boêmios e chorões, se tornou maestrina e é um dos baluartes da configuração da música brasileira. Apesar da importância de Chiquinha Gonzaga, além de ‘‘Abre Alas’’, suas composições são quase desconhecidas.
Vale ressaltar também os músicos que participam do disco. O time reúne Maurício Carrilho nos violões, Luciana Rabello no cavaquinho, Andrea Ernest Dias na flauta, Pedro Amorim no bandolim, Jorge Helder no baixo e Cristianino Alves no clarinete, além de Francis Hime, marido de Olívia, no piano.
O repertório inclui tangos brasileiros, polcas, modinhas, canções e valsas. Algumas composições nunca foram editadas, como a valsa ‘‘Perfume’’, que ganhou letra de Joyce. O caso de ‘‘Lua Branca’’, que se tornou ‘‘Serenata de uma Mulher’’ também é interessante. A música foi composta em 1911 e, na década de 30, ressurgiu como harmonização de J. Otaviano. Chiquinha Gonzaga acusou o plágio e recuperou a melodia para seu repertório. O CD tem distribuição nacional, mas pode ser adquirido diretamente com a Kuarup pelo telefone (021) 220-1017.

mockup