Oliver Stone está de volta com "Um Domingo Qualquer" Luiz Zanin Oricchio
São Paulo, 13 (AE) - Um jogo não é apenas um jogo - a não ser para quem sofre de incurável falta de imaginação. Na verdade, é um espaço simbólico onde se decidem muitas outras coisas além do placar final. É o pressuposto óbvio de "Um Domingo Qualquer", de Oliver Stone, que estréia amanhã (14). Pressuposto, aliás, quase sempre presente nos filmes sobre o assunto, de "Touro Indomável" a "Punhos de Campeão", passando por bobagens como "Homens Brancos não Sabem Enterrar"
ou grandes títulos como "Garrincha, Alegria do Povo" ou "Boleiros".
Aliás, filmes sobre esportes coletivos às vezes são ainda mais reveladores, porque fazem as vezes de microcosmos sociais. Seria o caso, em princípio, de "Um Domingo Qualquer" que, por tratar de temas universais, pode interessar até mesmo a quem não entende patavina de futebol americano. De fato, não é preciso ter idéia do que seja um "touchdown", nem mesmo é preciso gostar desse jogo de brutamontes para entender o que está se passando em campo - e principalmente fora dele.
Al Pacino é Tony dAmato, técnico veterano com dificuldades para driblar dois personagens adversos. Um deles é Willie Beamen (Jamie Foxx), jogador novato, taticamente indisciplinado, mas que, de uma hora para outra, começa a resolver os jogos sozinho. A outra é Christina Pagniacci (Cameron Diaz), que herdou o time quando o pai morreu e pretende dirigi-lo com olhos colocados no mercado e em nada mais. Além disso, DAmato precisa resolver os problemas do seu veterano quarterback, Jack Rooney (Dennis Quaid), contundido. Este está pensando em aposentar-se, para desespero do técnico e da sua mulher, que espera faturar mais duas ou três temporadas com o trabalho do marido.
O que acontece em campo? Aquelas jogadas típicas do futebol americano, sutis como o deslocamento de uma manada de elefantes, mas que, parece, emocionam os aficcionados. Muito bem filmadas por Stone, diga-se. Os jogos envolvem a equipe dirigida por DAmato, os Sharks, que não anda nada bem das pernas até que começa a evoluir. Graças, em boa parte, ao desempenho de Willie. Mas também, talvez principalmente, ao espírito de liderança de DAmato, de um lado, e de Rooney, de outro.
Como se sabe, a cabeça de Oliver Stone trabalha por oposições. Nesse filme, como em outros, ele coloca alguns pares de opostos em conflito. O principal deles sendo a iniciativa individual contra o espírito de equipe. Quer dizer, individualismo versus solidariedade. Os representantes das respectivas posições são Willie e Rooney. Um quer resolver tudo sozinho; o outro lidera uma equipe. Outra relação de pares opostos: o idealismo, ou um certo romantismo profissional, representado pelo próprio DAmato. No campo contrário, o espírito mercantil, tão bem personificado pela doce figura de Cameron Diaz.
Como se vê, sob a parafernália técnica e impressionante do filme, presente sobretudo nas cenas de jogos, repousa a simplificação maniqueísta de sempre. Stone raciocina em termos binários, o que não deixa muito espaço para uma dramaturgia adulta. Para "entrar no filme", temos de admitir que há, de maneira mutuamente excludente, uma maneira humana e outra materialista de encarar o esporte, e por extensão a vida, já que aquele é uma representação desta. Temos de admitir também que o espírito cooperativo tende a prevalecer, mesmo em uma sociedade apologista da iniciativa individual.
Quer dizer, trata-se de um ponto de vista de esquerda, ou, pelo menos antiestablishment, mesmo à maneira tosca do diretor. Mas, enfim, é uma posição. Menos tolerável, pelo menos para quem espera um pouco mais do cinema, é o desfecho, tão artificial quanto improvável. Essa conciliação final dos contrários coloca um selo indelével de "filme comercial" em "Um Domingo Qualquer". Nota-se que, para além de qualquer pretensão artística, Stone desejou deixar para trás as más lembranças dos trabalhos anteriores, "Assassinos por Natureza" e "Reviravolta". Em especial deste último, ousado, transgressor para valer e, por isso, grande fracasso de bilheteria. Para voltar aos braços do público, Stone faz um recuo estratégico em termos de estética e dramaturgia.





