Caminhar pelas ruelas de Olinda é render-se à sedução, embriagar-se de inspiração. Poesia. Está aí o exemplo de Moraes Moreira, cantor e compositor baiano enamorado, assim como muitos músicos, intelectuais, escritores e pintores famosos ou anônimos. Alceu Valença a adotou como moradia e não se cansa de homenageá-la em verso e prosa. Celeiro de todas as artes, situada a apenas 7 quilômetros do Recife, a cidade histórica acolhe mais de 50 artistas plásticos e artesãos entre seus 20 mil habitantes. É comum vê-los em plena produção. ''Sou o pai dos bonecos de Olinda'', apresenta-se Silvio Botelho responsável pela confecção dos gigantes coloridos que invadem as ladeiras da cidade no carnaval.
Há 30 anos no ramo, ele conta que começou com dois bonecos: o Homem da Meia-Noite (que todo ano abre oficialmente a folia) e a Mulher do Meio-Dia. O filho do casal foi o terceiro. Hoje, Botelho está terminando o 458º gigante, que faz com isopor papel e fibra. ''São inspirados em personagens da cidade e de outros Estados. Políticos, artistas...'', diz. O trabalho com cada boneco que pesa em torno de 13 quilos e custa a partir de R$ 800 dura uma semana, ''se não chover'', completa o artista.
Seu espaço de exibição, a Casa dos Bonecos Gigantes, recebe 200 turistas por dia em temporada de verão. ''Tem Carnaval 365 dias por ano'', indica a fachada na Rua do Amparo. Vizinho de Botelho, o Museu do Mamulengo é outro expoente de bonecos populares. Fundado em 1994, possui um acervo de cerca de 1.200 peças o povo representado por meio de festas, fraquezas, fé, riso, tristeza.
Mas, além dos museus, a Rua do Amparo reúne, sobretudo, os artistas de Olinda. Ali, moradores transformam sua casa em galeria. É o caso de Iza do Amparo, que pinta sobre tecido e tela, e de Sérgio Vilanova, com trabalhos primitivos, entalhes e aquarelas enraizados nas tradições populares. Já realizou exposições nos Estados Unidos, em Portugal e na Holanda, mas o sucesso não lhe sobe à cabeça. É simples e hospitaleiro, a exemplo de muitos companheiros. Na esquina com a Rua Prudente de Morais, outro nativo: José Carlos Sarmento, do Ateliê Zerson, faz pintura com os dedos. ''Estou terminando calças para a marca M Officer.''
Hora de saber por que a primeira capital de Pernambuco cativa moradores e visitantes. São 18 igrejas, bicas construídas a partir do século 16, conventos e sobrados incontáveis. Um conjunto arquitetônico reconhecido pela Unesco, em 1982, como Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade.
Mapa na mão, o passeio a pé começa no Alto da Sé, local de uma das igrejas mais antigas do Brasil. Lá, um mirante permite admirar a vista inesquecível. O casario, as torres sacras, os coqueiros e o mar azul claro. Guias mirins certamente irão interromper o momento mágico. Insistem em oferecer seu serviço a R$ 20. Aceite se quiser saber tudo sobre a história de cada construção. Ainda no alto, estão as famosas tapioqueiras e os vendedores do artesanato em madeira que retrata o casario local, com peças a partir de R$ 2.
Deixe as compras para mais tarde. Siga pela ladeira da Misericórdia. Pegando a direita, chega-se à Rua do Amparo (e da arte). Seguindo adiante, a Rua de São Bento. No caminho, o Mercado da Ribeira, ponto de venda de alimentos para escravos no século 17, funciona como oficinas de entalhadores. É a melhor dica para adquirir peças de qualidade (de R$ 10 a R$ 250).
Continuando pela Rua São Bento, surgem o belo casarão da sede da prefeitura, o Antigo Paço dos Governadores Gerais do Brasil e o Mosteiro de São Bento, de 1582, cujo altar-mor esteve exposto no Guggenheim Museum de Nova York. Lá dentro, diariamente, os fins de tarde são dedicados a mais uma forma de arte: canto gregoriano.

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