A carreira de diretor requer um alto grau de percepção e idealização de imagens e cenas. E vale tudo quando o assunto é transpor para o vídeo as ideias e palavras dos autores. Entre o experimental e o funcional, diretores passeiam pelos filmes clássicos que se tornaram referências em suas memórias, flertam com tendências do momento e até, assumidamente ou não, homenageiam – ou plagiam – seus diretores preferidos. Para além da sétima arte, fotografia, artes plásticas e outras expressões entram na "roda". No entanto, da junção de tantas fontes, os mais pretensiosos almejam mesmo é entregar o trabalho mais autoral possível e assim construir uma assinatura.
No caso da teledramaturgia e, especificamente, das novelas, o grande problema reside em como manter a qualidade das imagens no decorrer de uma produção tão longa. "O cinema tem um processo de elaboração e maturação de ideias muito mais propício para que a imagem fique especial. Mas é preciso aprender a trabalhar com o que se tem. Dirigir novelas é um grande exercício de tentar fazer sempre algo mais. A cada dia, a gente tenta sair do óbvio", analisa Rogério Gomes, diretor da novíssima "Além do Tempo", da Globo.
Gomes vem de trabalhos completamente diferentes na tevê: o seriado policial "A Teia" e a novela "Império". Em ambos, o diretor recorreu ao realismo e sobriedade de longas de ação de diretores como Tony Scott e Sidney Lumet. Na novela atual, Gomes volta sua atenção aos clássicos de época. "Além do Tempo" tem forte conexão com a literatura da inglesa Jane Austen e dos filmes adaptados de sua obra, como "Razão e Sensibilidade", de Ang Lee, e "Orgulho e Preconceito", de Joe Wright.
Apostando em cenas externas e com luz natural, além de velas nos ambientes fechados, o objetivo do diretor é deixar o clássico o menos "fantasioso" possível ao longo da primeira fase da novela.
Tramas ou fases de época são pratos cheios para qualquer diretor experimentar várias de suas referências. Com "O Rei do Gado", por exemplo, Luiz Fernando Carvalho não apenas revisitou o estilo épico como também se inspirou nas obras de pintores italianos da era romântica para diferenciar esse trabalho. "Eu vinha de um trabalho muito brasileiro e com cores fortes e cheias de contrastes que foi 'Renascer'. Queria seguir por outro caminho e a 'escola' de pintores como Giuseppe Bezzuoli foi importante nesse processo", conta o diretor.
Dos diretores da Globo, Carvalho é um dos que mais se mostra disposto a aglutinar referências que fogem do audiovisual. Suas "viagens" criativas o tornaram um grande ruído dentro da Globo, mas sua fama de "gastador" e projetos que fogem do óbvio o deixaram mais próximos de séries e seriados de curta duração, como "Capitu" e "Hoje é Dia de Maria", produções de forte teor teatral e regional.
O retorno do diretor às novelas não poderia ter sido mais inusitado. Em "Meu Pedacinho de Chão", de 2014, o uso de materiais reciclados ajudaram a compor a estética da história, com fortes ecos da cultura japonesa, evocando animes e filmes como "A Viagem de Chihiro", de Hayao Miyazaki, e "Sonhos", de Akira Kurosawa.
Aos poucos, outros profissionais da emissora começam a variar mais em suas referências. Em "Verdades Secretas", Mauro Mendonça Filho estreia na função de diretor de núcleo de novelas de forma ousada e com a segurança de quem passou muitos anos no background. "Tenho assistido a muitas séries americanas e inglesas e observado uma nova revolução no modo como as histórias estão sendo contadas. O objetivo é o público não sentir mais o que é cena de estúdio e cena de externa. Busco essa coerência", conta.
Das séries a que tem assistido, Mauro elege a inglesa "Skins" como uma boa fonte de inspiração para a novela das onze. "Queria algo jovem e cru. A estética da série me pegou de jeito, mas trabalhamos com uma paleta de cores diferentes, sempre abusando de um colorido mais 'dark', misturando cores ácidas a roxo e azul, por exemplo", explica Mauro.
Outro diretor brasileiro que tem se inspirado bastante em sucessos televisivos do exterior é Alexandre Avancini, da Record. Tanto na saga da série "José do Egito" como no folhetim "Os Dez Mandamentos", ele não esconde a influência épica de "Game of Thrones", da HBO. "Usamos as mesmas câmeras e lentes que os americanos. A série não é só referência em fotografia, mas também em estilo de produção. O melhor desse trabalho é revisitar o épico sem soar tão antigo. É aí que reside a complexidade dos projetos bíblicos também", ressalta.

Imagem ilustrativa da imagem Olhos vivos



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