Tem sido dito, com boa dose de razão, que a abertura é grandiloquente. Ok, Snake Eyes, aqui traduzido para ‘‘Olhos de Serpente’’, começa com Brian De Palma tentando mesmo provar (como se tivesse necessidade disso) que é diretor de recursos. Na história, a dupla central de personagens, o policial corrupto Rick Santoro (Nicolas Cage) e seu amigo, o comandante da marinha Kevin Dunne (Gary Sinise), encontram-se num ginásio lotado para uma luta de boxe.
O primeiro plano do filme - que estréia hoje em todo País - dura cerca de 20 minutos. Sem cortes aparentes. A luta nunca é vista e o espectador só sabe dela pela narração e pela visão da platéia. No momento do nocaute ouvem-se tiros, um figurão é assassinato e a trama abre-se num intrincado complô, que compreende armas balísticas defensivas, corrupção nas Forças Armadas, etc, etc. A ação toda se passa no interior do ginásio gigantesco, com um hotel e cassino anexos e o que precisa ser acrescentado para a compreensão do resto fica por conta do velho e bom flashback,
quando o cineasta-narrador recua no tempo para colher os antecedentes da trama.
Além do plano inicial, há outras sequências que testemunham o virtuosismo do diretor. Por exemplo, aquela em que a câmera sobrevoa os quartos do hotel anexo ao ginásio e registra tudo o que ocorre nos interiores. Há quem fale em exibicionismo e existe quem prefira o termo habilidade. De qualquer forma, De Palma usa o seu instrumento de trabalho da maneira mais sofisticada possível.
Já virou lugar-comum dizer que Brian De Palma ama as citações, o que o transformaria no mais evidente representante do pós-modernismo em matéria de cinema. Como ocorre com boa parte dos clichês, este aqui também é verdadeiro. Só que não acrescenta grande coisa à compreensão do espectador, porque simplifica algo que não é tão simples assim.
Por exemplo, filmar em off, quer dizer, deslocar a câmera para um objeto que não é o essencial da cena, não chega realmente a ser novidade no mundo do cinema. Talvez De Palma pensasse em Bergman e sua ‘‘A Flauta Mágica’’, que começa apenas com a reação da platéia e não a dos atores em cena. Ou no Kurosawa de ‘‘Rashomon’’, que contempla vários pontos de vista distintos, e até contraditórios, para afirmar o relativismo da narrativa.
É isso mesmo, mas não é apenas isso. Por exemplo, De Palma, em determinado momento de ‘‘Olhos de Serpente’’, trabalha com uma verdade relativa, porque a história passa a ser trabalhada segundo a lembrança que cada um dos participantes tem dos fatos. Mas, embora a história termine de maneira aberta, ele não leva o relativismo ao ponto de destruir qualquer possibilidade de uma verdade única, como fizera Kurosawa. Ou seja, De Palma incorpora procedimentos alheios, mas para uso próprio e o faz segundo um estilo e visão do mundo que lhes são próprios.
Assim, ‘‘Olhos de Serpente’’ começa em tom triunfal, do ponto de vista cinematográfico. Aos poucos, no entanto, vai revelando suas limitações. A trama, deliberadamente complexa, não tem uma contrapartida adequada na profundidade dos personagens. Como se o diretor contasse com uma história enrolada, a ser contada por personagens rasos. Sobra câmera; falta dramaturgia. Quando isso ocorre, não há como evitar o resultado ralo obtido no final, em que pese o exagero retórico de certas cenas e, em especial, do elenco.
Dito isso, é preciso fazer a diferença entre um Brian De Palma e a maioria dos produtos comerciais que chegam às telas. Sobra a ‘‘Olhos de Serpente’’ a marca de um estilista de classe, ainda que às vezes desastrado, mas com talento suficiente para produzir um filme eletrizante, pelo menos até a sua metade.

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