Olhos de farol
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de novembro de 2013
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Com jeito de quem sabe o que quer, Flávia Alessandra mostra-se acostumada ao esquema industrial, e por vezes efêmero, da tevê. Seguindo o raciocínio de que a única certeza do veículo é que depois de uma novela sempre haverá outra, a atriz garante que parou de sofrer com a ansiedade de fazer a personagem "acontecer" dentro da trama. "Busco propostas instigantes, mas não depende só de mim. Novela é um trabalho extremamente coletivo", conta, já totalmente recuperada de sua morna participação na controversa "Salve Jorge".
De olho no futuro, Flávia agora mergulha nos conflitos e na maturidade de Heloísa, de "Além do Horizonte". "Minha personagem tem dilemas próprios e centrados no eixo principal da novela. Fora isso, é carregada do humor e do romantismo bem característicos das novelas das sete, horário que eu conheço bem", resume.
Natural de Arraial do Cabo, Região dos Lagos do Rio de Janeiro, Flávia estreou na tevê aos 14 anos. Na época, venceu um concurso de novos talentos do "Domingão do Faustão" e entrou para o elenco de "Top Model", de 1989. Hoje, aos 39, é uma das atrizes mais requisitadas da Globo. "Batalhei minha carreira aos poucos e sempre variei muito de núcleo, até quando era casada com o Marcos Paulo, que era diretor da emissora", analisa.
Ao longo dos últimos anos, Flávia tem estado cada vez mais disposta a experimentar na tevê. À vontade na pele de mocinhas em tramas como "Porto dos Milagres" e "Caras & Bocas", ela assume sua predileção por personagens multifacetadas, em especial a perversa e passional Cristina de "Alma Gêmea" e a sensual Alzira de "Duas Caras". "Quanto mais diferente e distante de mim for a personagem, mais caminhos e possibilidades de atuação eu tenho", acredita.
"Salve Jorge" acabou em abril e, no mesmo mês, você já começou a se preparar para "Além do Horizonte". Estava nos seus planos voltar às novelas tão rápido?
Não esperava. Marquei minhas férias com a certeza de que só voltaria ao ar em novelas na próxima do Aguinaldo (Silva), que está prevista para o final do próximo ano. Mas, na televisão, a gente escolhe mais a equipe do que o trabalho em si. Estava indo viajar com a família e o Ricardo (Waddington, diretor de núcleo de "Além do Horizonte") me ligou falando sobre o status inovador do projeto. Aí, não resisti e topei.
O que tornou o convite tão irresistível?
A força da personagem. A Heloísa tem um lado emocional muito intenso. Ela sofre um grande abalo da vida. O marido some, vai em busca de algo que ninguém sabe exatamente o que é, desaparece e é dado como morto pela Justiça. Ela fica com aquela sensação estranha de dúvida. Afinal, o corpo nunca foi achado. Como consequência, Heloísa tem de criar a filha sozinha em meio a uma sociedade emergente e cruel. Para proteger a filha dos traumas, afirma que o pai dela morreu e pronto. Anos depois, aparecem indícios de que esse cara está vivo. E o conflito familiar se instaura. Para o horário das sete, me impressiona a qualidade do drama dessa história.
Como assim?
Acho que os autores conseguiram ousar bastante. Lógico que tem a leveza típica do horário e que eu já pude experimentar algumas vezes, como em "Pé na Jaca" e "Caras & Bocas". Mas existe o algo mais. O Marcos (Bernstein) e o Carlos (Gregório) tocam em "feridas" pertinentes, questionam valores e a própria busca da felicidade. Tivemos muito pouco tempo de preparação para a novela, mas, durante esse processo, lembrei muito de quando tinha lá meus 14 anos e tentava me encontrar dentro do universo. Achei que isso seria uma fase, que logo depois estaria segura das minhas escolhas e feliz. Mas as perguntas perduram até hoje. Estou sempre tentando melhorar. Essa procura é um tema inesgotável. Todo ser humano busca a felicidade, a cara metade e emagrecer (risos).
A Cristina de "Alma Gêmea" é um "divisor de águas" na sua trajetória. Você acha que o fato de ser uma vilã foi importante para o êxito desse trabalho?
Não sei se foi só o fato de ser vilã. Uma antagonista bem escrita e bem interpretada é tão interessante quanto uma mocinha com dilemas realistas. Já estive nas duas posições. E acho que sucesso de crítica e repercussão de público é uma junção de fatores. A Cristina ainda é a personagem mais forte da minha carreira pela força e carisma que ela tinha. Fiz outras personagens adoráveis e populares depois, mas nenhuma usava um batom tão vermelho (risos).
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