Quem tem um olhar apurado quando se trata de arte, também se encantou por Londrina. O renomado crítico e professor de História da Arte da USP Tadeu Chiarelli, convidado especial da IX Semana de Arte de Londrina, que acontece até o dia 30, na Casa de Cultura, não poupou elogios à cidade, em sua primeira visita, para participar de uma mesa-redonda do evento. ''Olha a luz dessa cidade! É linda demais...'', não cansava de comentar.
Muito bem disposto, nas duas horas que antecederam o compromisso do evento, e pouco mais de uma hora após ter chegado de São Paulo , Chiarelli fez questão de conhecer alguns locais edificados com a genialidade do arquiteto Vilanova Artigas (1915-1985), como o Museu de Arte, antiga Estação Rodoviária, e o Cine Teatro Ouro Verde. A recomendação foi do amigo Rodrigo Naves, também crítico de arte, que já participou de várias edições da Semana, inclusive como curador.
''Não sou um especialista em arquitetura, mas tenho uma relação afetiva pelas obras do Artigas. Quando estudava na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, na década de 70, costumava ir ao prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), que é do Artigas, e me encantava com a sua maneira de pensar a arquitetura de maneira visual, que foge do vulgar'', destacou Chiarelli.
No seu roteiro, além de conhecer as obras expostas na IX Semana de Arte, também não quis deixar de visitar no Shopping Catuaí a exposição fotográfica em comemoração aos 55 anos da Folha de Londrina, da qual teve notícia ao comprar um exemplar do jornal, quando ainda estava no aeroporto. Embora tenha achado a instalação ''tímida'', pela quantidade e pela forma forma como os painéis foram expostos, elogiou os trabalhos dos repórteres fotográficos Sérgio Ranalli e Paulo Wolfgang.
Chiarelli ainda fez questão de comprar o livro ''Lavrador de Imagens'', de Marcos Losnak e Rogério Ivano, que conta a história do imigrante japonês Haruo Ohara, que desde 1999, ano da sua morte, vem tendo seus trabalhos fotográficos mais divulgados, obtendo reconhecimento da crítica especializada. ''As fotos de Haruo Ohara são simplesmente maravilhosas. Foi uma das belas surpresas que tive'', opinou.
O seu primeiro contato com as obras de Ohara aconteceu este ano durante a organização da 12 edição da Exposição Pirelli-Masp de Fotografia, realizada em São Paulo, de 21 de agosto a 12 de outubro, e considerada a maior e mais respeitada da área no Brasil. Um dos integrantes do comitê deliberativo da exposição, Chiarelli contou que as pessoas entraram ''em polvorosa'' quando as fotografias de Ohara chegaram.
Ele lembrou que Thomas Farkas, um dos maiores fotógrafos brasileiros e dono da Fotoptica, que também integrava o comitê, lembrou de ter visto Ohara em uma das suas lojas em São Paulo. ''Contou que Ohara chegou, apontou decididamente a máquina fotográfica que queria e tirou um 'bolo' de dinheiro do bolso para pagar...'', relembrou. Durante a exposição, 32 obras de Ohara ficaram em uma sala especialmente dedicada a ele, além de algumas fotos terem sido compradas para integrar o acervo do museu.
Aliás, a formação de acervos fixos foi um dos pontos destacados por Chiarelli. ''É um direito de qualquer pessoa ter acesso a uma obra de arte. Poder conhecer e saber que daqui a alguns anos poderá trazer os seus filhos ou netos para conhecer também. Não concordo com exposições bombásticas, que exigem grandes investimentos e depois de alguns meses vão embora. É necesário pulverizar esses recursos, deixando uma boa parcela para a formação de acervos públicos'', ressaltou. Na sua opinião, o governo atual ainda não definiu uma linha clara de política cultural, mas, espera, otimista, que isso mude nos próximos três anos.
Defensor de um tipo de crítica de arte que se remete ao passado motivada pelo presente, Chairelli não compactua com a divisão tradicional de que o historiador da arte deveria estudar o ''passado'' e o crítico, a ''arte atual''. ''A arte faz parte de um 'fenômeno artístico'. A produção contemporânea me mobiliza a ter outras investigações, que levam ao passado, é um grande estímulo'', ressaltou. Parafraseando o historiador italiano, que também foi prefeito de Roma, Gulio Carlo Argan, Chiarelli afirma: ''A 'arte é um fato histórico', passível de se tornar um objeto de pesquisa dentro da história da arte''.
Sobre o papel do crítico, Chiarelli avaliou que antes a crítica era mais engajada no cotidiano, mas que, principalmente com o processo da ditadura militar, saiu das páginas dos jornais, que proporcionavam um debate mais crítico, para a universidade. ''Não temos uma grande tradição crítica no Brasil e as pessoas ficaram desacostumadas à crítica, que deve servir de mediador entre o artista e o público.''
Na sua opinião, a maior parte da crítica atual brasileira é ''perversa'' e ''falta ponderação''. ''Muitos críticos optam pela 'falsa indiferença', não se posicionam, que é uma maneira cruel de deixar o evento 'morrer por si mesmo'. O artista não é um artesão, é um intelectual que tem que ter alguma resposta do seu trabalho'', argumentou. ''Falta delicadeza, respeito pelo trabalho do outro. Deve-se apontar os aspectos negativos e positivos de um trabalho para gerar o debate, o questionamento e nunca ser um 'escriba de aluguel'', acrescentou.
Para o segundo semestre do ano que vem, Chiarelli aguarda a inauguração da exposição ''Anita Malfatti - anos de formação'' (nome provisório), da qual é curador, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Cerca de 60 obras de uma das artistas mais importantes do modernismo brasileiro irão mostrar a sua trajetória artística até 1917. ''Ela foi uma figura importantíssima e acho que é necessário haver uma revisão do seu trabalho para que ele seja revitalizado. A sua obra ainda tem muito a ser estudado e queremos levantar este debate com a exposição.''

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