OLHO VIVO NO MERCADO
Nelson Sato
De Londrina
A anemia criativa ronda outra vez a MPB. Com o empurrão das gravadoras, vários artistas suprem a indisposição com gravações ao vivo. A palavra de ordem é reinterpretar as próprias canções ou requentar o repertório alheio festejando mais um ciclo de revisionismo musical sob aplausos literais da platéia.
Neste reino do remake, sem lugar para composições inéditas, proliferam álbuns ao vivo de intenções duvidosas e uns poucos de inegável qualidade. O estouro do álbum Acústico dos Titãs há dois anos e o sucesso comercial do CD Prenda Minha de Caetano Veloso que pela primeira vez em sua carreira superou o patamar de 1 milhão de cópias vendidas talvez sejam os principais reponsáveis pelo fenômeno.
A onda parece obedecer meramente a critérios mercadológicos, excluindo pudores de ordem artística. A tendência, evidenciada neste segundo semestre, foi abraçada por todas as grandes gravadoras. Entre os artistas que lançaram discos ao vivo recentemente ou que estão prestes a lançar figuram Caetano, Chico Buarque, Djavan, Gal Costa, Maria Bethânia, Luiz Melodia, Elba Ramalho, Paralamas, Jair Rodrigues, Toquinho e Paulinho da Viola.
Mas a lista é mais extensa, incluindo também mais um volume semi-acústico dos Titãs programado para chegar às lojas em novembro completando assim uma espécie de trilogia da preguiça. Nem sempre, porém, a fórmula fácil das compilações de sucessos prevaleceu no formato ao vivo.
Nos anos 60 e 70, os discos gravados durante os shows eram recheados de composições novas, o que compensava a baixa qualidade de som dos registros. O antológico álbum Fatal (1971), de Gal Costa, é emblemático dentro do gênero. A cantora, contudo, é uma das que optaram por um caminho menos ambicioso em seu novo trabalho.
O CD Gal Costa ao Vivo, previsto para sair dos fornos em outubro, vai reunir apenas composições de Tom Jobim levando para um público mais amplo o repertório e o clima dos shows realizados este mês na casa noturna Palace, em São Paulo. As músicas selecionadas homenageiam o maestro antes, durante e depois de sua passagem pela bossa nova incluindo faixas como Fotografia, Chega de Saudade, Por Causa de Você, Bonita e Janelas Abertas.
A também baiana Maria Bethânia esteve se apresentando no Palace há dois meses com o show do CD A Força que Nunca Seca, que gerou um certo zunzunzum entre os críticos por trazer o hit É o Amor de Zezé di Camargo. O show foi gravado e o disco deve chegar às lojas em novembro. O álbum de seu irmão Caetano Veloso, por sua vez, acaba de sair.
Também ao vivo, Omaggio a Federico e Giulietta traz o compositor homenageando o diretor de cinema Federico Fellini (1920-1993) num trabalho que tem sido bastante elogiado, mas que no entanto não traz canções inéditas. Gravado há dois anos num show na cidade de Rimini, terra natal do cineasta, o disco chegou a levantar a suspeita de ter sido lançado agora apenas para coincidir com a estréia da novela Terra Nostra, que mostra a imigração italiana no Brasil.
A ausência de músicas desconhecidas marca também trabalhos de outros compositores do primeiro time da MPB nesta temporada. No mês passado, Djavan apareceu com uma coletânea reunindo 22 sucessos e apenas duas faixas inéditas. O CD duplo foi gravado em julho no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. O trem das releituras ao vivo não poupou nem Chico Buarque, que deve arremessar o seu álbum da turnê do disco As Cidades ainda em outubro.
Pegando carona na ciranda, Luiz Melodia acaba de soltar seu Acústico ao Vivo repleto de hits de sua errática trajetória. Pérola Negra, Dores de Amores, Estácio Holly Estácio e Magrelinha são algums dos clássicos garimpados. Da turma do samba, Zeca Pagodinho deve engordar a conta bancária com o lançamento de seu primeiro CD ao vivo gravado no primeiro semestre durante uma temporada no Metropolitan, no Rio.
Há pouco, o veterano Jair Rodrigues saiu da moita com o CD 500 anos de Folia, um registro do show realizado na casa noturna Olympia, em São Paulo. Há duas semanas, Paulinho da Viola juntou-se a Toquinho no Teatro João Caetano, Rio, para desfilar o repertório que já vinham apresentando em palcos paulistas (capital e interior) desde o ano passado.
O show carioca foi gravado e sai em disco no próximo mês trazendo faixas como Que Maravilha (de Toquinho e Jorge Ben Jor), Regra Três (Toquinho e Vinícius de Moraes), Sinal Fechado (Paulinho) e outros clássicos. Entre reinterpretações e homenagens, o vírus dos álbuns ao vivo prossegue implacável em seu ataque à originalidade.
Na área pop, vale lembrar o recente Acústico dos Paralamas e o saudosista Acústico do Legião Urbana, ambos sob a chancela da MTV. O segundo será lançado em outubro trazendo o registro do show realizado em 1992 pela banda de Renato Russo. Além dos citados, a longa lista de lançamentos nesta temporada é engrossada com Joana (20 Anos ao Vivo, CD duplo), Elba Ramalho (20 Anos, CD duplo com um disco ao vivo e outro de estúdio) e mais Banda Eva, Raça Negra, Araketo e Cheiro de Amor. Ao vivo, a música popular brasileira sucumbe aos apelos do cifrão.Uma torrente de álbuns ao vivo está inundando o mercado brasileiro neste segundo semestre em que sobram regravações
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