Curitiba - Depois de três semanas de incertezas, o governo do Estado anunciou como será a forma de gestão do NovoMuseu. Está sendo estruturada a Associação de Amigos do NovoMuseu que, nos moldes dos principais museus do País, vai ajudar a flexibilizar o orçamento do espaço. Isso significa que doações recebidas, eventual bilheteria e outros recursos provenientes do próprio espaço (como o restaurante) serão administrados pela associação, que presta contas ainda que indiretamente para o governo. Outros museus da cidade, assim como o Teatro Guaíra, funcionam com fórmula semelhante.
Mas nem tudo está claro o assunto é o NovoMuseu. O governo atual ainda não sabe, por exemplo, se vai sugerir a formação da associação para administrá-lo ou vai deixar a escolha a cargo do próximo governo. O secretário de Assuntos Estratégicos, Alex Beltrão, responsável pelo espaço até o dia 31 de dezembro, quando a gestão do governador Jaime Lerner (PFL) será encerrada, disse que o atual governo está concentrando esforços para finalizar a estrutura do espaço, inaugurado às pressas no final de novembro.
Beltrão revela que ainda falta concluir alguns setores, como o atendimento aos turistas, os auditórios e a reserva técnica, fundamental para a funcionalidade de um museu. ''A conclusão da obra é prioridade'', disse, ressaltando que não houve atraso. ''O projeto de investimento vai até o final de dezembro'', justifica. Financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no valor de 14 milhões de dólares, o projeto também prevê um ''plano de negócios'' que, entre outras disposições, pede uma definição da gerência do espaço.
Como orientação, o NovoMuseu deixa o estatuto da associação, mas o secretário de Assuntos Estratégicos é evasivo quando se trata da formação do quadro. ''Seus integrantes podem ser entidade privadas ou não'', disse, com a objetividade de Caetano Veloso.
Associações de Amigos é a solução adotada pela maioria das entidades culturais para fugir da burocracia do governo quando o assunto é dinheiro. A diretora do Museu da Pampulha, em Belo Horizonte, Priscila Freire, explica que uma associação tem mais flexibilidade, tanto para obter quando para administrar os recursos obtidos por meio de doações. Assim como o NovoMuseu, o Museu da Pampulha também foi uma obra criada pelo maior arquiteto vivo do Brasil, Oscar Niemeyer. O prédio mineiro foi construído 20 anos antes da obra curitibana, mas só passou a funcionar como museu em 1957, depois de ter abrigado um cassino. ''Essa é uma das dificuldades dos museus brasileiros, eles são prédios ociosos adaptados e nunca são construídos com a finalidade museológica'', diz.
Por isso, argumenta Priscila, os prédios carecem de um orçamento bastante significativo quando o assunto é manutenção. Vidraças quebradas, eventuais goteiras e reparos constantes são necessários até mesmo em novas obras e nem sempre os recursos do governo (ou da prefeitura, no caso do museu mineiro) estão disponíveis. No NovoMuseu, por exemplo, as obras ainda não foram concluídas mas já se pôde ver os efeitos das fortes chuvas que atingiram Curitiba nos últimos dias (quem visitou o museu, não pode deixar de notar as goteiras). É aí que entra a associação. A entidade pode obter com mais agilidade recursos tanto para exposições quanto para manutenção do prédio.
O Museu da Pampulha passou por uma grande reforma física e administrativa na década de 90. A responsabilidade do prédio é da prefeitura, mas uma associação de amigos é encarregada de conseguir recursos para as exposições, desenvolvimentos de projetos e obtenção de acervo. ''Uma das dificuldades nesse caso é o número de sócios'', diz a diretora do museu mineiro explicando que a quantidade de sócios reflete o apoio da sociedade, fundamental na gestão do espaço.
Outra questão prioritária num museu, segundo Priscila Freire é a definição de um diagnóstico do espaço. ''O Museu da Pampulha, por exemplo é dedicado à arte contemporânea'', enfatiza a diretora questionando sobre o direcionamento do NovoMuseu. ''Não é bom um museu não ter um perfil, o espaço tem que ter um caminho, uma direção'', analisa.
Não é segredo que o NovoMuseu nasce com um acervo precário e com um proposta confusa. Inaugurado com o codinome de ''Arte, Arquitetura e Cidade'', há quem diga que o trinômio é muito abrangente para a proposta e função de um museu. Mas parece haver redenção. O superintendente do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateubriand (MASP), Fernando Pinho argumenta que manter um bom acervo e trazer exposições significativas não é mais o maior problema dos museus brasileiros. ''O mais difícil é obter patrocínio e isso se consegue com uma boa política cultural''.
Cabe ao Estado, na opinião de Pinho, definir a política cultural a ser seguida pelo museu. ''E uma boa administração é fundamental para garantir o funcionamento do espaço'', salienta. Para isso, entre outras soluções a serem adotadas, Pinho defende a cobrança do ingresso. Engenheiro por formação e há oito anos à frente do MASP, Pinho lembra de quando o museu não cobrava entrada para as exposições. ''A deterioração do espaço pelos visitantes era muito maior''. O MASP cobra atualmente, R$ 10,00 por entrada, mas em contrapartida, além das significativas exposições que promove, oferece um dos maiores acervos da América Latina. Por enquanto, não é o que oferece o NovoMuseu.
As sete exposições que estão no local foram patrocinadas pela Petrobras, num valor de R$ 2,7 milhões, não incluídos no orçamento da obra, como foi sugerido. O investimento aconteceu por meio da Lei Rouanet. A entrada para as exposições ainda não está sendo cobrada. Pelo menos até o próximo dia 31.

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