William Shakespeare (1564 - 1616) escreveu cerca de 38 peças, 154 sonetos e dois longos poemas narrativos, obra que atravessou o tempo e está entre as mais conhecidas do planeta. Dizem que Hamlet, um de seus personagens, figura entre as entidades mais estudadas no mundo, juntamente com Jesus e Napoleão Bonaparte. Tudo isso justifica as celebrações pelos seus 400 anos de morte, completados no dia 23 de abril e que segue por 2016, quando também se completaram os 400 anos da morte de Miguel Cervantes.

Em Londrina, data tão significativa será lembrada numa mostra de cinema com nove longas-metragens adaptados de sua obra. Filmando Shakespeare - que acontece de hoje ao dia 1º de julho no Sesi - é uma promoção da produtora Kinopus, com idealização e curadoria do cineasta Rodrigo Grota. Trata-se da primeira homenagem na cidade aos 400 anos da morte de um autor que inspira uma verdadeira "bardolatria", dada sua importância tanto no teatro quanto na poesia

Grota teve o cuidado de inserir na mostra filmes não muito conhecidos pelo grande público, como a adaptação que o cineasta russo Grigori Kozintev fez de Hamlet (1964) e Rei Lear (1971), além de filmes mais recentes como a adaptação Macbeth: Ambição e Guerra (2015), de Justin Kurzel, além das imperdíveis versões restauradas de Macbeth (1948), Otelo (1952) e Falstaff (1965), realizadas por ninguém menos que Orson Welles. Falstaff, o Toque da Meia Noite está entre os filmes favoritos do próprio Welles e muitos críticos o colocam no mesmo grau de importância de "Cidadão Kane" (1941), considerada a obra-prima do cineasta norte-americano que ao adaptar a obra de Shakespeare para as telas conseguiu acrescentar ao épico seu senso habitual de improvisação.

Para realizar a mostra sobre um autor que possivelmente foi o mais adaptado para o cinema e a TV até hoje – há registros de mais de 1.100 adaptações de Shakespeare para as duas mídias - Grota afirma que utilizou como critério as analogias: "Queria que o público pudesse comparar a visão que o cineasta russo Grigori Kozintsev (1905-1973) teve de Hamlet nos anos 1960 com a releitura feita em 1996, quando o ator e diretor britânico Kenneth Branagh tinha apenas 36 anos. É muito diferente a visão que se tem de Hamlet aos 60 e aos 30 anos. No caso de Kozintsev, há uma dor cristalizada, potencializada pelo seu rigor visual e cênico. Já no filme de Branagh, há a sedução desmesurada pela poesia do texto, o desejo de se contaminar e se recriar a partir daquele universo muito bem sintetizado pelo crítico Harold Bloom como a invenção do humano como o conhecemos. Além disso, há cineastas que conseguiram compreender o universo de Shakespeare de uma forma única, caso do americano Orson Welles (1915-1985), presente na Mostra com três filmes. Welles era absolutamente fascinado por Shakespeare, suas adaptações são originais sobretudo por se expressarem na concepção visual do filme algo próximo da poesia que o autor britânico apresentava na estrutura dos versos, do texto. O que o bardo fazia com as palavras Welles tenta recriar com a luz, o posicionamento da câmera, o ritmo da montagem."

Mas Filmando Shakespeare não se destina apenas para quem conhece profundamente a obra do dramaturgo inglês, Grota pensou num formato que também cative novos espectadores: "Tentei escolher filmes que cativassem um público novo, caso do Macbeth de 2015, e do documentário Ricardo III - Um Ensaio, do Al Pacino. São filmes que podem seduzir um público mais jovem para o universo de Shakespeare. A minha intenção com esta Mostra é que cada vez mais possamos retomar Shakespeare para repensar os nossos dias. O que é o humano hoje quando o comparamos com as figuras criadas por Shakespeare há 4 séculos? Os filmes não vão trazer respostas definitivas, até porque o cinema é uma linguagem aproximativa e não uma ciência exata. O que mais importa nesse caso é estimular o público para que ele possa se pôr em estado de alerta, permitir-se a dúvida, algo muito caro a um autor como Shakespeare."

DEBATEDORES
A mostra conta ainda com debatedores que vão conversar com o público ao fim das sessões em dias alternados. Trata-se de Heloisa Bauab, Mauro Rodrigues e Sílvio Demétrio – todos professores da UEL - o dramaturgo Maurício Arruda Mendonça também participa do evento. A ideia é potencializar as exibições e atrair um público maior, tirando as pessoas das poltronas domésticas para um evento público, no qual a troca de informações resulta numa experiência cultural muito mais rica. Os debatedores, segundo Grota, além da experiência acadêmica têm uma produção cultural própria. "Eu queria esse olhar mais completo, que trouxesse não só a análise mais racional, mas também a intuição pulsante, aquela que se apaixona pela forma, pela linguagem, que reconhece em uma obra elementos que escapam à racionalidade. Acredito que um crítico ao analisar uma obra não deixa de ser um artista, assim como um artista ao criar a sua obra não deixa de exercitar seu ponto de vista crítico."
A mostra tem tudo para ser um banquete para cinéfilos, admiradores de Shakespeare e o público em geral disposto a conhecer ou revisitar a obra de um autor que teve a desenvoltura de escrever comédias e tragédias com o mesmo talento, além de dramas históricos. Por tudo isso, resgates de sua obra atravessam os séculos e chegam a 2016 revigoradas por produções cinematográficas recentes como o filme "Miguel e William" (2015), da espanhola Inés París que foi apresentado no Rio este ano, como parte das comemorações dos 400 anos das mortes de Shakespeare e Cervantes. Se Shakespeare soube investir em temas viscerais como o amor e a morte, Cervantes, com Dom Quixote, deixou como legado uma das maiores histórias sobre a aventura humana, rompendo nosso medo de ficarmos presos ao sonho e levando à literatura a possibilidade de embarcarmos sem receios na loucura.
Shakespeare, do mesmo modo, nos instiga à fantasia, exemplo vigoroso é a peça Sonhos de Uma Noite de Verão com foco espirituoso e que teve várias adaptações para o cinema. O sucesso da peça, escrita em 1590, talvez esteja no fato de tocar nos assuntos "tolos" do coração, tema que nunca perde atualidade, ainda mais quando se liga à fantasia de introduzir fadas e duendes em cenas e planos de ação tão divertidos quanto delicados.

Shakespeare conseguiu a mestria de ser um autor de comédias tão importante quanto de tragédias. Sonhos de Uma Noite de Verão se inscreve no primeiro gênero juntamente com a Comédia dos Erros, A Megera Domada e O Mercador de Veneza. Já as tragédias condensam de modo absoluto os mais sórdidos sentimentos humanos, como o ódio, a disputa, a vingança, a manipulação pelo poder, inoculados generosamente em peças como Macbeth, Rei Lear e Otelo.

Confira a programação completa:

Filmando Shakespeare
Quando: de 28 de junho a 1º de julho
Onde: Anfiteatro do Sesi – Praça Primeiro de Maio, 130, em frente à Concha Acústica
Quanto: Entrada franca
Promoção: Kinopus, com apoio cultural do Sesi


Dia 28/06, terça

19h30 Otelo (1952, 90 min), de Orson Welles
Após a sessão haverá um bate-papo sobre o filme com Sílvio Demétrio, professor de Comunicação da UEL

Dia 29/06, Quarta

14h Hamlet (1996, 242 min), de Kenneth Branagh

19h Hamlet (1964, 140 min), de Grigori Kozintsev

Neste dia, Heloisa Bauab, professora de Artes Cênicas da UEL, conversa com o público

Dia 30/06, Quinta

14h Macbeth (1948, 92 min), de Orson Welles

16h30 Macbeth: Ambição e Guerra (2015, 113 min) , de Justin Kurzel

19h Macbeth (1971, 140 min), de Roman Polanski

Neste dia, Mauro Rodrigues, professor de Artes Cênicas da UEL, conversa com o público

Dia 01/07, Sexta

14h Falstaff (1965, 113 min), de Orson Welles

16h30 Ricardo III – Um Ensaio (1996, 112 min), de Al Pacino

19h Rei Lear (1971, 139 min), de Grigori Kozintsev

Neste dia, o dramaturgo e poeta Maurício Arruda Mendonça conversa com o público

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