Olhares múltiplos atrás das lentes
A partir de hoje todo malabarismo para driblar o tempo será gratificado. Quem conseguir encarar as 39 exposições da II Bienal Internacional de Fotografia terá como retorno um universo de temas e imagens que vão de locais paradisíacos na Amazônia às festas italianas no Bixiga, em São Paulo. O Paraná de antigamente faz parte da trajetória, com os registros colhidos por Arthur Wischral, um de nossos pioneiros. A diversidade comanda o espetáculo.
A natureza é tema dos trabalhos de Araquém Alcântara, Manuel da Costa, César Barreto, Nelson Yoneda, Regina Stella, Paulo Batista, Martin Streibel, Rui Varela e do chinês Chen Bao Cheng. Suas fotos estarão expostas no Solar do Barão; elas exaltam a beleza da região de Shaanxi, onde vive atualmente.
Araquém Alcântara, o mais importante fotógrafo brasileiro de natureza, com mais de 200 mil quilômetros percorridos e um número superior a 100 mil registros, escolheu 100 para mostrar em Curitiba, na Casa Vermelha. O gaúcho Manuel da Costa apresenta uma instalação no Museu Metropolitano de Arte, ‘‘Luzes do Ano - Ciclo da Vida’’. Neste trabalho ele mostra a ligação que há entre as quatro estações do ano com os ciclos vitais da flora e da fauna da Mata Atlântica.
Claus Meyer terá uma sala especial no Solar do Barão. Nascido em Dusseldorf (Alemanha), encantou-se com o Brasil. ‘‘É um País fotogênico’’, dizia. Dedicou-se a fotografar sua fauna e flora, até morrer em 1996, logo depois de participar da primeira bienal.
Claudia Andujar e Pedro Martinelli enveredaram pela Amazônia com outro objetivo; seguiram de encontro à realidade social desses ermos. Dessa viagem Claudia extraiu o material para ‘‘Cenas da Vida em Aldeia Yanomami’’, em cartaz no Museu Metropolitano de Arte, e Martinelli para ‘‘O Homem da Amazônia’’: 37 fotos inéditas enfocando o dia-a-dia do homem no seu universo de águas e matas.
O Centro Português de Fotografia, de Portugal, enviou a mostra ‘‘Murmúrios do Tempo’’, com reproduções fotográficas dos boletins de identificação feitos em cadeias da cidade do Porto, no início do século. A organização ‘‘Encontros da Imagem’’, da cidade de Braga, é a responsável pela vinda da obra de Chen Bao Cheng e da coletiva de famosos fotógrafos americanos, que documentaram a recessão dos anos 30.
Três gerações de uma mesma família de artistas concentram-se na Bienal. O público terá contato com obras de José Oiticica, fotógrafo que chegou a ser considerado um dos melhores do mundo, de seu filho Hélio - famoso artista plástico neocroncretista - e do neto César, que hoje coordena no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro o Projeto Hélio Oiticica. Pelo menos 50 anos brasileiros estarão impressos nessas imagens.
Rosa Gauditano, cuja marca é o uso da luz e cores acentuadas em seus trabalhos, montou ‘‘Cores e Festas’’ para apresentar na Galeria de Arte do Inter Americano. Emidio Luisi direcionou suas lentas para a imigração italiana no Brasil e daí surgiu ‘‘Ue Paesà’’, saudação italiana que significa ‘‘olá companheiro’’. Religiosidade, alegria, trabalho, solidão, ascensão e decadência convivem lado a lado no transcorrer dos tempos. Enfim um novo enfoque, entre os muitos, que a II Bienal encerra.
(Z.C.L.)

mockup