Um boa surpresa, o longa-metragem de estréia do paulistano Flavio Frederico, veterano curta-metragista sempre em atividade. ‘‘Urbânia’’, segundo concorrente nacional apresentado no 29º Festival de Gramado é uma singular e feliz combinação de ficção e documentário, um bem amarrado casamento entre a dura realidade e a ficção, não menos penosa. Foi o único longa da noite, que ainda teve quatro curtas e a homenagem a Hugo Carvana (veja matéria nesta página)
Dois outsiders passam a cidade de São Paulo em revista, a bordo de um carro conversível. Um deles, o motorista, é malandro da Boca do Lixo, vivido, experiente, vivendo o dia de hoje sem perspectivas para o amanhã. O outro, velho e cego, procura vestígios de outros tempos, final dos anos 50, quando viveu grandes momentos.
Nesta trajetória rumo ao desencanto, a cidade imensa vai se revelando através de depoimentos de seres marginalizados, de uma forma ou de outra.
Com orçamento baixíssimo, rodando originalmente em video digital, Frederico e sua reduzida equipe trabalharam de maneira a extrair o máximo das locações onde é mais aguda a descaracterização de certa parte do centro de São Paulo, região de Campos Elísios, e onde se agravou a questão social. Aos poucos, a dupla de desencantados vai revelando o que foi feito da lira paulistana, que fim levou o charme e a placitude de um recorte histórico que a inconsciente voracidade do progresso simplesmente aniquilou. Sem posar de sociólogo ou levantar bandeiras partidárias, Flávio Frederico percorre as vias mais sombrias de São Paulo à luz do dia e à noite, informando ao espectador que tanto faz o claro ou o escuro quando a realidade social é cinza e uniforme.
Depois do curta mineiro ‘‘Negócio Fechado’’, o segundo melhor momento da competição da categoria foi a exibição de ‘‘Sinistro’’, do brasiliense René Sampaio. É uma estranha comédia negra com roteiro em forma de espiral, fazendo lembrar o melhor Quentin Tarantino, com ritmo próximo de ‘‘Amores Perros’’. Tais referências não remetem este pequeno ótimo filme ao saturado território do pastiche, mas mostram como é possível reciclar com criatividade material de boa qualidade. Em resumo: dois bombeiros do Siate, muito hilários, fazem pronto atendimento em grave acidente de trânsito. Com uma vítima semi-morta na viatura, eles seguem para o hospital falando sobre mulheres e futebol, e a partir daí incidentes e coincidências vão alterar o rumo das coisas.
‘‘Seu Nen꒒, em cima das memórias orais do criador da Escola de Samba Nenê da Vila Matilde, não consegue combinar o rico depoimento do personagem de 80 anos com imagens adequadas, e o documentário de 25 minutos resvala para a burocracia.

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