Curitiba - Olhar uma fotografia pode ser uma verdadeira aula de história, tamanha a referência cultural que uma imagem pode transmitir. Quando se trata das mais recentes imagens produzidas pelo fotógrafo e arquiteto curitibano Zig Koch, o conceito da fotografia é ainda mais abrangente. Durante dois meses ele sobrevoou o País para revelar, numa ótica bastante peculiar, a diferença e as semelhanças das regiões. O resultado é a mostra ''Brasil de Tordesilhas'', que abriu ontem no Memorial da Cidade, em Curitiba.
A mostra é inspirada numa curiosidade antiga do fotógrafo, adquirida ainda na infância, a respeito do tratado. Para quem faltou à aula de história, trata-se de um documento assinado por Portugal e Espanha, em 1494, com a mediação do Vaticano. O tratado determinava uma linha divisória das terras e reservava tudo o que estivesse a Leste desse limite para os portugueses, incluindo o Brasil, e a Oeste para os espanhóis. A esquerda da linha, era tudo de Espanha; a direita, as terras eram de Portugal.
Partindo dessa breve premissa histórica, Zig literalmente colocou a mochila nas costas, subiu em cerca de sete aeronaves pilotadas pelo seu pai, atravessou 14 estados e produziu 350 filmes, o que resulta em cerca de 12 mil fotos. Apenas 62 fazem parte da exposição que retrata a parte do território brasileiro que pertenceu à Coroa Portuguesa. A curadoria é de Dirce Carrion, proprietária da agência de fotografias Reflexo.
Durante o tempo da viagem para documentação fotográgica, Zig enfrentou diversos imprevistos, entre eles as intempéries. Em Natal (RN), por exemplo, precisou ficar alguns dias esperando um clima propício para que pudesse prosseguir viagem. Enfrentar o vento nas alturas foi uma dificuldade à parte, conforme conta o fotógrafo.
Em uma das viagens, relata, quando voava a bordo de uma asadelta motorizada com apenas dois lugares, o fotógrafo teve que trocar de equipamento. ''É um vôo perigoso, não pode escapar nenhum objeto porque se alguma coisa tocar na hélice, ela pode quebrar'', explica. Trocar o filme e enxergar com os óculos de proteção também foi um obstáculo considerável.
Mas Zig parece ter transposto todas as barreiras técnicas com maestria. As fotos que compõe a exposição não revelam apenas a História do Brasil, mas sim uma beleza ímpar que Zig faz questão de destacar. ''Eu quis mostrar justamente essa riqueza de paisagem, de diversidade que o País tem e que é o nosso diferencial'', diz.
Todas as fotos foram feitas em 35 mm, com excessão de uma que é em grande formato. As que compõem a exposição foram ampliadas e tratadas em São Paulo. Fazem parte da mostra 62 painéis, mas os curitibanos vão poder apreciar 50 deles, já que a sala de exposição do Memorial não comporta a exposição completa.
A mostra - fruto de um projeto inscrito na Lei Rouanet - abriu pela primeira vez em Brasília, no Salão Negro do Congresso Nacional. Passou pelo Rio de Janeiro e só agora chega em Curitiba, onde pode ser vista até o próximo dia 15. Em seguida ela segue para Pernambuco e termina em São Paulo. A meta é transformar o projeto em livro, mas as negociações ainda estão em trâmite.
Enquanto isso, Zig finaliza um outro livro que traz imagens das Florestas de Araucárias que ainda restam no País. ''Ainda estamos buscando patrocínio'', adianta o fotógrafo. Conhecido por suas fotografias de natureza, Zig possui trabalhos publicados em mais de uma centena de reportagens de revistas de circulação nacional e internacional. Tem participação em mais de 30 livros e guias e possui um arquivo com cerca de 70 mil cromos sobre fauna, flora e áreas de preservação.
Serviço: Exposição Fotográfica ''Brasil de Tordesilhas'', por Zig Koch, no Memorial da Cidade (Largo da Ordem). Aberta à visitação até dia 15 de setembro.

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