OLHAR FORASTEIRO SOBRE A NOTÍCIA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de novembro de 2001
Rodrigo Teixeira<br>TV Press 
César Tralli chama a atenção pela aparência juvenil e pelo currículo de veterano. Atualmente com 30 anos, aos 24 se tornou o correspondente internacional mais jovem da Globo. Para registrar os cinco anos que ficou em Londres, na Inglaterra, este paulistano resolveu se aventurar pela área da literatura. Acaba de lançar o livro ''Olhar Crônico'', que em menos de um mês esgotou a tiragem de 6 mil exemplares. Tralli publica 39 crônicas em que comenta os bastidores de matérias que ele produziu para a Globo em vários países e as experiências pessoais que passou no exterior. ''Me transformei em um contador de histórias'', afirma.
Atualmente Tralli é repórter especial do ''Jornal Nacional'' e ''Globo Repórter'', além de apresentar nos fins de semana o ''SP TV'', telejornal diário do estado de São Paulo. ''Meu tempo de correspondente já passou'', decreta o jornalista, que não esconde a vontade de ter um talk-show ou um programa de auditório na Globo. Escolhido pela emissora para embarcar no primeiro vôo liberado para Nova York que após os atentados do 11 de setembro, Tralli tem muita história para contar. A própria entrada para a tevê como repórter do ''Aqui e Agora'', do SBT, em 1990, é uma delas. ''O Silvio Santos me ouviu na Rádio e mandou me chamar'', lembra o jornalista, que começou como redator do jornal ''Folha de S. Paulo'' aos 15 anos.
Por que você decidiu lançar o ''Olhar Crônico''?
Porque muita gente falava que tinha de escrever um livro com as minhas histórias. Então em março de 2000, escolhi 40 delas e comecei. Sempre tive vontade de escrever, porque o texto de tevê é muito simples. Além de poder entrar em um novo flanco de trabalho. Estou bastante animado, pois o livro vendeu seis mil exemplares e a Editora Globo já pediu uma nova edição. Mas só decidi publicar o livro após submetê-lo a alguns amigos, como Joelmir Beting e Zuenir Ventura.
Você colocou informações no livro que não foram utilizadas nas matérias?
Tentei diferenciar. Na crônica do Expresso-Oriente, por exemplo. O objetivo da reportagem para o ''Fantástico'' era mostrar o glamour de viajar no trem mais luxuoso do mundo. Já no livro, exploro o fato de que um trem luxuoso como o Expresso-Oriente, onde se veste black-tie para jantar, não existe um chuveiro para tomar banho. Na verdade, as histórias de bastidores, que são mais curiosas, vão ficando de fora do processo da tevê, pois temos pouco tempo para desenvolvê-las.
Você também parece evidenciar o choque cultural que foi morar em Londres. Por quê?
Para mostrar como o mundo é interessante justamente por esta diferença de culturas. Na Inglaterra os vizinhos, quando precisam falar com você, mandam fax ou colocam bilhetes embaixo da porta. É impensável isto no Brasil. Mas por mais que o inglês possa ser expansivo, ele não tem a cultura de se aproximar dos outros. Então fica-se 20 anos convivendo com uma pessoa, apesar de não ter contato com ela.
Teve alguma informação que você não incluiu no livro?
As aventuras amorosas. Levei a minha namorada e nos casamos na Inglaterra. Mas nestas andanças pelo mundo, vivi alguns romances secretos. Mesmo assim acabei me separando aqui no Brasil, há dois meses. Também tem histórias que não mencionei o nome de pessoas para não colocá-las em risco. Os que me ajudaram a encontrar os guerrilheiros do Hezbollah no Líbano, por exemplo. Mas fui franco e fiz questão de expor as minhas inseguranças no livro. Para mim esta história de imparcialidade é utopia. Como o socialismo. É lindo no papel, mas na prática não funciona.
Você deve diariamente colher histórias interessantes como repórter. Dá vontade de escrever outro livro?
Agora estou cansado. Mas penso em muitos projetos, como um talk-show na Globo. É mais fácil ter bons apresentadores do que bons repórteres de tevê. Por isso, a reportagem é um porto seguro que preciso ter aqui no Brasil. Meu tempo de correspondente já passou.


