Depois de protagonistas e papéis de destaque, alguns atores conseguem a proeza de trabalhar apenas por convites em personagens pensados para eles. Bruno Gagliasso se encaixa perfeitamente neste caso. Disputado por núcleos dentro da Globo, seria fácil e até bem produtivo para ele esperar sempre pelo próximo chamado.
No entanto, de olhos vivos e atento aos sinais, o ator parece não querer ficar deitado em berço esplêndido. A prova disso é que, mesmo com alguns impedimentos, Bruno fez de tudo para conseguir o papel principal da série "Dupla Identidade". Escrita por Glória Perez, a produção descortina os crimes do serial killer Edu, jovem de classe média acima de qualquer suspeita. "Tudo pesava contra. O papel foi feito para um ator bem mais velho e eu já estava escalado para outro produto da emissora. Mas, ao ler o roteiro, senti que deveria me esforçar para viver esse personagem e comecei a insistir com a Glória, diretores, todo mundo. Queria ao menos fazer o teste. Fiz e passei", conta, entre risos.
Aos 32 anos, o ator carioca sentia necessidade de uma renovação na carreira. Não que as coisas estivessem na mesmice. Até porque Bruno vem de uma leva de bons e diversificados personagens, que incluem o bem-humorado Berillo, de "Passione", o vilão Timóteo, de "Cordel Encantado", e o mocinho Franz, de "Joia Rara". No entanto, interpretar Edu é uma forma de entrar em um processo de trabalho mais intenso e sair um pouco do esquema de produção industrial das novelas. Há cerca de 4 meses, ele está imerso em referências e inspirações para "Dupla Identidade". "A grande dificuldade desse papel são os detalhes. É preciso passar as reais intenções do Edu, mesmo ele tendo cara de bonzinho e gente boa. É um exercício e tanto", analisa.

Histórias de assassinos em série não são comuns na teledramaturgia nacional. De que forma essa temática chamou sua atenção?
Eu gosto do que não está tão evidente. Edu é um cara bacana e que foge de qualquer estereótipo. É do tipo que poderia estar em qualquer lugar, interagindo e conversando com as pessoas. No entanto, ele gosta de matar, sente prazer em ter em mãos o poder sobre a vida e a morte. Ele gosta de se sentir uma espécie de Deus. Esse perfil de personagem é um "sonho" para qualquer ator.

Na contramão de seus trabalhos mais recentes, você ganhou o papel principal depois de participar dos testes para o projeto. Como foi este processo?
Soube nos corredores do Projac que a série tinha sido aprovada e que o protagonista seria feito através de teste. Eu adoro o formato de série, sou viciado em suspense. Pedi para ler a sinopse e fiquei fascinando com a linguagem e a intensidade dos acontecimentos. Aí, comecei a encher o saco da produção para ser avaliado também. Fui o último a fazer teste para viver o Edu. Na hora, não pensava em nervosismo ou na ansiedade de ter o papel, fiz com a certeza de estar dando o melhor do meu trabalho. Dias depois, fiquei sabendo que o papel era meu.

Como você acha que conseguiu convencer a direção para assumir um papel escrito para um ator mais velho?
Gostei do personagem, achei que eu já estava mais maduro para enfrentar o tipo de complexidade que o papel exigia. Eu sabia que o roteiro tinha sido escrito para um ator mais experiente, mas pensei que poderia funcionar independentemente da faixa etária. A psicopatia pode afetar qualquer um. E tenho um rosto normal, daria para convencer. O Edu é aquele personagem que todo ator quer fazer quando se sente mais maduro na profissão. Gosto de mexer com quem me assiste, de problematizar, levantar questões. Acho que essa é uma das funções da carreira de ator.

Como assim?
A teledramaturgia tem um impacto enorme no Brasil. Acontecem atrocidades nas notícias dos jornais, mas uma cena de novela consegue mobilizar mais o Brasil do que a própria realidade. Ou seja, tem muita gente de olho na ficção. Acho válido trazer discussões para o público. É por isso que me envolvo em projetos desse tipo. Não é a primeira vez que empresto minha atuação para um personagem não apenas porque gostei dele, mas pelo que ele poderia gerar de repercussão nas famílias.

O Júnior, de "América", e o Tarso, de "Caminho das Índias", são dois tipos que levantaram questões acerca da afirmação da sexualidade e da esquizofrenia, respectivamente. Como foi a resposta do público a esses papéis?
Tão boa que são lembrados até hoje. A esquizofrenia, infelizmente, é um assunto meio à margem da sociedade em geral e que precisou dessa visibilidade, pois é algo sério e que precisa ser analisado. "América" é, possivelmente, um dos trabalhos que me dá mais orgulho. Mesmo sem o beijo gay no último capítulo, acho que a história do Júnior ajudou um pouco a desmitificar a questão gay nas novelas.

Depois de tantos personagens de destaque e protagonistas, como você encara voltar a fazer testes para conseguir um papel?
Não tenho a vaidade de ser apenas convidado para trabalhar. Se o projeto é importante e me instiga de alguma forma mais intensa, é claro que eu posso e devo correr atrás. Se o ator começa a se acomodar, pode acreditar que só vão surgir papéis parecidos para ele fazer. Sinceramente, eu gostei de ser testado.

Por quê?
Lembrou o início da minha carreira. E reafirmou a importância de mostrar que eu consigo fazer o personagem que aparecer, basta ter foco e determinação. Não vou citar nomes, mas outros atores muito bons fizeram o teste. Então, para mim, a vaidade deste trabalho consiste em ser reconhecido para fazer esse personagem tão forte.

Onde você buscou referências e inspirações para interpretar Edu?
Vi muitos filmes de suspense e que traçam perfis de serial killers. Esse tipo de assassino é muito mais comum em Hollywood do que na produção audiovisual brasileira. A série "Dexter" tornou-se o ponto de partida para o elenco entender e buscar outras inspirações independentes. No mais, o processo da série foi se firmando mesmo no estudo do texto. Foram dois meses de ensaios exaustivos até que o diretor viu que todos nós estávamos prontos para iniciar as gravações.

Esse tipo de processo mais intenso é usual nas séries e em outros formatos de menor duração. Você estava um pouco cansado do esquema industrial das novelas?
Acho que o legal é diversificar. Realmente, em séries é possível aprofundar mais o trabalho, grava-se de forma fechada, sem surpresas no caminho. Mas, se hoje tenho mais versatilidade como ator, devo às novelas. Eu não tenho essa coisa de "dar um tempo". Se surge um trabalho interessante na sequência de sair de uma trama, eu faço. Sou novo, preciso e gosto de experimentar. Mas é claro que é interessante sair desse "esquema". Continuo adorando fazer novelas e estou aberto a convites. Mas, se aparecer algo parecido com "Dupla Identidade", não vou hesitar em insistir para participar.

mockup