Olhar agudo sobre a realidade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de dezembro de 1997
Edmundo Inagaki Curitiba 
Um portfólio de 14 páginas do fotográfo português/curitibano Orlando Azevedo abre a última edição (outubro/97) da revista bimensal Photographers International, uma das mais importantes do mundo. A publicação, editada em Taiwan pela dupla Juan I-Jong e Nathalie Juan, nota que Azevedo é conhecido por sua versatilidade. Os trabalhos selecionados pela revista destacam reportagens e abordagens da mistura entre as culturas européia e latino-americana.
Orlando AzevedoColheita do Lixo: capa do livro de Eduardo Galeano publicado na Alemanha
Nascido na Ilha Terceira, no arquipélago de Açores, em 12 de maio de 1949, Orlando Azevedo vive no Brasil desde 1963. Formado em Direito, dedica-se profissionalmente à fotografia publicitária e fotojornalismo, colaborando com as principais revistas do país. Além de expor e publicar regularmente sua produção, tanto no Brasil como no exterior, ainda encontra tempo para promover diversos eventos de fotografia de repercussão nacional e internacional, como a Bienal Internacional de Fotografia - Cidade de Curitiba.
Orlando AzevedoRegistro de um olhar atento sobre a banda, que teima em passar
Seu nome foi incluído na Encyclopedie des Photographes que faz um apanhado da fotografia no mundo de 1839 até hoje (Editions Camera Obscura/Suíça). Tem trabalhos expostos no acervo do Museu Francês da Fotografia (Paris), Bibliotheque Publique DInformation/Centre Georges Pompidou/Beaubourg (Paris), Museu de Arte de São Paulo (MASP), Fundação Cultural de Curitiba e International Center of Photography (Nova York).
É citado no livro Em Torno da Fotografia no Brasil, de Pietro Maria Bardi, tendo participado também da 20ªBienal Internacional de São Paulo, na Sala Especial Francisco Brennand. Membro do Conselho Consultivo do Museu da Imagem e do Som do Paraná, Conselho Consultivo do Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC) e Abrafoto (diretor regional do Paraná), além de Diretor de Artes Visuais da Fundação Cultural de Curitiba.
Entre seus trabalhos mais importantes está o ensaio-reportagem Shows & Camarins de Camarote, retratando artistas do ritual fascinante do espetáculo. Tem três livros publicados: Fitas e Bandeiras Venske (um requintado trabalho sobre uma velha fábrica abandonada, fotografada como um cenário esquecido e abandonado, com uma atmosfera melancólica e nostálgica), Foz do Iguaçu - Nossa Terra (registrando a monumentalidade e a exuberância da natureza) e Jardim de Anões (documentando de forma surrealista os anões dos jardins residenciais, como se eles fossem observadores da passagem do tempo).
No texto de apresentação do ensaio de Orlando Azevedo para a revista Photographers International, intitulado Liberdade de Imaginação, o pesquisador e crítico de fotografia Rubens Fernandes Júnior fala sobre o olhar curioso do fotógrafo. O imaginário de um repórter que busca revelar o mundo imperceptível do cotidiano; o repórter-ensaista intuitivo que traz com transparência e intimidade, a radical experiência da celebração de uma realidade que passa despercebida. (...) as fotografias são fragmentos visuais intuitivos que compõem um pequeno conjunto, que reveste-se de magia para iconizar o realismo e a melancolia do nosso tempo.
Para o fotógrafo, a inclusão na revista - que circula pelas bancas dos principais museus de arte da Europa, Ásia e América do Norte - é o momento mais importante da carreira. Além dele, só outro brasileiro (Miguel Rio Branco) havia sido publicado por Photographers International até agora. Eles (os editores da revista) são extremamente criteriosos. Selecionei várias fotos, entre nus, marinhas, retratos e fotojornalismo, e mandei para Taiwan.
Como naquela época estava muito ocupado com a organização da Bienal de Fotografia, demorei quase um ano para responder ao convite, lembra o profissional, que só utiliza câmera mecânica Leica 35mm.
Mesmo fazendo parte desse grupo seleto, Azevedo ainda se considera um operário da fotografia. Apesar do meu trabalho em estúdio, continuo sendo, antes de tudo, um repórter. Esse glamour que cerca o mundo da fotografia não me atrai. Não sou do tipo que cria situações para fotografar. Quero registrar o instante, aquele momento de paixão e devoção, que está presente na fotografia documental, no ensaio ou na série Colheita do Lixo (de onde saiu a foto publicada na capa da edição alemã do livro 500 Anos da Conquista da América do escritor uruguaio Eduardo Galeano e que também está presente na revista Photographers International). São esses heróis anônimos da cidade que compõem a história.
RocknrollNo início da década de 70, antes de enveredar definitivamente pela fotografia, Orlando Azevedo experimentou a música, mais precisamente o rocknroll. Foi como baterista da lendária A Chave, que o então garoto cabeludo mergulhou de cabeça na chamada contracultura. Fazíamos um hard rock, misturando de Rolling Stones e Led Zeppelin até Rita Lee, que de vez em quando aparecia na república onde a banda morava, recorda o ex-roqueiro, que tinha como companheiros de casa e barulho Ivo Rodrigues (vocal) e Paulo Teixeira (guitarrista), ambos hoje do Blindagem; e Carlos Augusto Gaertner (baixista), hoje no Bartenders.
A experiência com A Chave foi útil em vários aspectos. Por exemplo, como cantávamos em português, acabamos redescobrindo a sonoridade da nossa língua, a plasticidade que ela tem. Outro grande barato era a atitude grupo, pois estávamos interessados em todas as artes. Como a música, o teatro, a poesia e todas as outras manifestações artísticas, a fotografia também é uma viagem poética, filosófa Azevedo.


