Olga tentava descrever a filha
Em suas cartas, Olga Benário tentava esconder de Prestes as condições em que vivia e dar-lhe um retrato da filha. E ainda conseguia ter algum humor.
15 de maio de 1937: Meu querido, quero falar-te da pequenina. Ela pesa agora 7.200 gramas e este último mês aumentou mais quatro centímetros. Tem agora, portanto, 68 centímetros. Atualmente, bastaria somente que crescesse ainda um metro, que seria uma pessoa adulta.
Gostaria que tu visses como sua carinha se ilumina quando a gente se aproxima dela. O mais alegre são seus olhos azuis, tão brilhantes e tão claros, e verdadeiramente pícaros, como sempre chamavas os meus.
2 de junho de 1937: No pátio há uma árvore e lá no alto uma família de passarinhos. Creio que são melros. No início estavam chocando e agora têm os filhotes. É possível vê-los voltar sem parar para alimentar seus filhinhos com minhocas ou outras coisas. Eu os olho e, então, penso sempre em nós. Porque os homens chegam a separar assim uma família como o fizeram conosco? Há todo um oceano entre nós e, entretanto, estamos tão próximos um do outro. Quisera ficar sentada durante muito tempo ainda a escrever-te, mas é preciso terminar. Carlos, beijo teus queridos olhos negros e desejo que eles brilhem de alegria. Tua pequena Olga.
28 de julho de 1937: Mas dize-me, meu querido, porque não me escreveste durante três meses? De 16 de março até 22 de junho houve um grande silêncio e isto apesar de que tu poderias escrever-me todas as semanas. Se eu fosse capaz de me zangar contigo, isso teria sido uma razão não sabia mais o que deveria pensar. A primeira palavra inteligível que a nossa pequena disse foi papá e seguidamente, estando deitada, dizia durante horas no mesmo tom: ba-ba, ba-ba, e eu tinha o coração oprimido...





