Oitos lados da decomposição da lógica
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terça-feira, 05 de setembro de 2000
De Londrina Especial para a Folha2 
No decorrer do século 20, a literatura latino-americana entrou com os dois pés na porta principal do conto. Calçando grandes sapatos de originalidade, invariavelmente sujos de fantásticas terras, o gênero rompeu com a idéia comum de que novas e boas narrativas estavam restritas a escritores europeus.
Um dos melhores exemplos de escritor que derrubou a referida porta de maneira revolucionária, se encontra na figura do escritor argentino Julio Cortázar (1914 - 1984). A criatividade de seus escritos conferindo formas de narrativas específicas para cada texto sempre levando em conta o sentido de seu conteúdo é uma virtude inegável de sua literatura. Uma característica estilística praticamente desconhecida pelas novas gerações de leitores.
A produção literária de Julio Cortázar, foi cultuada tanto pela esquerda latino-americana por sua ideologia marxista, tanto por teóricos acadêmicos que estudavam e evidenciavam a genialidade de sua obra. Nos últimos de vida, aos mesmo tempo que era estudado em teses em universidades, doava os direitos autorais de seus livros aos revolucionário sandinistas da Nicarágua.
Ao lado de Jorge Luis Borges (1899 - 1986), Cortázar foi, e ainda é, escritor de maior projeção mundial da literatura argentina. Existe poucas semelhanças entre ambos uma delas seria o fato de tanto Borges como Cortázar viverem a maior parte de suas vida fora da Argentina. As diferenças são evidentes: em termos políticos, Borges fez o papel de reacionário; Cortázar, de revolucionário.
Durante a década de 70, os livros de Cortázar eram publicados quase que simultaneamente na Europa de no Brasil. A Editora Civilização Brasileira, através das mãos do falecido editor Ênio Silveira, foi responsável pelo lançamento de grande parte das edições brasileiras como o clássico O Jogo da Amarelinha e Histórias de Cronópios e de Fama.
A Civilização Brasileira, a partir de 1998, começou a colocar em prática o projeto de republicação das obras de Cortázar fora de catálogo. Dando prosseguimento ao projeto, acaba de lançar Octaedro um dos principais livros de contos do escritor.
A obra, publicado originalmente em 1975, reúne oitos textos escritos em linguagens distintas. Partindo de situações comuns, Julio Cortázar constrói histórias que, em determinado momento, passam a ser invadidas por situações incomuns e fantásticas. Um mistério sempre brota na existência de cada personagem onde o interior pode alterar o exterior e o exterior alterar o interior, geralmente com alguma fúria. Mistérios desprovidos de qualquer possibilidade de resolução. Isso porque um mistério passível de solução não pode ser considerado mistério propriamente dito.
O leitor que tiver a oportunidade de ter o livros às mãos, recomenda-se ir diretamente à página 43, no conto intitulado Manuscrito Encontrado Num Bolso. O texto revela toda a potencialidade da literatura de Cortázar, entre o real e o insólito. A decomposição da realidade aparente é a grande matéria-prima para o nascimento do estranho aquilo que a razão não consegue guardar em vidros de compota. Em outras palavras, a vida sempre é estranha quando busca alguma coisa. E ela vive buscando sempre. (M.L.)
Octaedro - De Julio Cortázar, Editora Civilização Brasileira, tradução de Glória Rodríguez, 128 páginas, R$ 19,00.


