São Paulo, 29 (AE) - Há várias maneiras de aproximar-se de "Oito Milímetros". A mais fácil (e também capenga) é achar que se trata de um thriller razoável, com algumas cenas fortes e impressionantes, embora prejudicado por buracos na narrativa. A mais árdua é constatar que se trata, afinal de contas, de um filme errado em relação ao tema, mas perfeito para explorar o "carisma" do astro Nicolas Cage.
Hollywood não toma jeito. Mais vale uma fantasia bem boba, tipo "Simplesmente Irresistível", do que um filme de denúncia como este. O espectador já sabe o que esperar logo no começo, quando o personagem de Cage chega em casa e tenta enganar a mulher de que não andou fumando, quando o espectador acaba de vê-lo tragando cigarro após cigarro como se fosse uma chaminé. É o artifício encontrado pelo roteiro para destacar o lado "humano" do protagonista, a sua falha de caráter que logo será confrontada com a dureza do mundo.
Cage é contratado por uma milionária para investigar a origem de um filme na bitola de 8 mm que ela encontrou no cofre do marido que acaba de morrer. É um snuff movie que mostra uma jovem sendo cortada até morrer. Diante do horror, a reação de Cage é fazer feito Denzel Washington em "Filadélfia", na cena em que ele vê, desde o interior, o mundo gay na festa de Tom Hanks e Antonio Banderas e corre para casa para ver a mulher e a filha que dormem tranquilas. Graças a Deus, existem pessoas normais, que ainda sabem separar o bem do mal.
O personagem de Cage corre para casa e olha a filha no berço. Para o ator, é o tema do filme - o medo dos pais de que seus filhos venham a ser vítimas dos predadores à solta no mundo. Investigando daqui e dali, Cage chega à identidade da garota que morreu. Por meio de um número de telefone em sua mala
descobre o homem que rodou o filme. No processo de mergulho no inferno, em busca da garota, este "Orfeu" é ajudado por um rapaz que trabalha na ponta da indústria pornográfica, numa pequena locadora. Ele lhe abre as portas dos porões do submundo.
É tudo dark, sinistro, sujo. Como super-homem que é (de eficácia comprovada em filmes como Con Air e A Outra Face), Cage combate os vilões e chega ao mais sinistro deles, o homem mascarado que executou a garota. É a melhor cena do filme, a mais impactante. Por trás da máscara sadomasô, ele encontra um sujeito bem comum e inofensivo, que não sofreu nenhum tipo de abuso para justificar sua transformação em monstro.
Se o filme adotasse o ponto de vista de "O Silêncio dos Inocentes" e "Seven, Os Sete Crimes Capitais", mergulhando de cabeça no mundo das mentes enfermas para traçar o retrato de uma sociedade doente, regida pela pornografia e pela violência, o resultado poderia ser apreciável e até grande. Mas não é o que se pode esperar de um diretor como Joel Schumacher, de filmes como os da série "Batman" e também de "O Cliente" e "Tempo de Matar", fundamentados sobre uma concepção maniqueísta de mundo.
"Oito Milímetros" prossegue com constantes da obra de Schumacher: a sua fixação no tema da morte, uma obsessão que remonta à época em que ele, ainda menino, perdeu o pai. Mas, no fundo, a despeito de sua ambição, é só mais uma ladainha moralista do diretor que é considerado um dos valores seguros do cinema americano, com sua familiaridade com o sucesso.

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