Oito colinas formam a cidade alta
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domingo, 18 de outubro de 1998
Ana Cláudia Braun Agência Estado 
Oh, linda situação para uma vila. Com esta frase, dita meio sem querer pelo donatário Duarte Coelho Pereira, a pequena cidade de Olinda acabaria por ganhar um nome que refletiria a beleza de seus encantos naturais. Localizada a apenas seis quilômetros do centro de Recife, Olinda registra em suas casas, ruas e monumentos a imponência dos tempos áureos, quando a cidade era ocupada por colonizadores portugueses, vista como a vanguarda cultural e a mais cotada para tornar-se sede da capitania de Pernambuco.
Oito colinas formam a cidade alta, área que concentra 23 igrejas e 11 capelas. Do alto da Igreja da Sé, um dos principais pontos de Olinda e que data do ano de 1537, pode-se ter uma excelente vista da antiga Vila de Olinda, eleita como o segundo menor município brasileiro e a cidade-dormitório da desenvolvida Recife. Ali, altares de madeira banhados a ouro e a mistura de estilos - barroco e mourisco, ganham destaque.
A poucos metros, na mais famosa feira da cidade, a Sé, turistas podem provar a tapioca e o queijo coalho, embalados pelas melodias das trovas dos cantores populares - os repentistas, e aproveitar para comprar peças típicas da região - toalhas em renda, entalhes em madeira cajá, trabalhos de ambulantes feitos em nanquim e artesanatos diversos. Após uma longa descida pela Ladeira da Misericórdia e pela Igreja de mesmo nome, que abrigou a primeira casa de Misericórdia do País, pode-se chegar ao Mercado da Ribeira. Utilizado no final do século 17 como um importante centro de comércio de escravos, o local abriga hoje lojas de artesanato. Quase em frente ao mercado, espessas ruínas do Senado da cidade ainda estão presentes, prontas para mostrar o primeiro grito de República no Brasil, em novembro de 1710.
Já chegando ao Mosteiro de São Bento, de 1582 e o segundo mosteiro beneditino em terras brasileiras, pode-se retornar à história. Com brasão da ordem beneditina e o estilo barroco explícito em seu altar, o local abrigou a primeira escola de Direito do Brasil, antes mesmo da faculdade no Largo do São Francisco.
Andar pela cidade é também sentir um pouco de seu povo e de sua cultura. Ruas de pedras e casas antigas, no estilo mourisco, estão integradas à paisagem natural, da mesma forma que os artistas populares fazem parte do cenário da cidade. Pode-se encontrá-los por toda a parte, com seus ateliês repletos da magia da cultura popular.
Casas e sobrados coloniais registram em sua arquitetura traços que remetem à grandiosidade do passado na rua do Amparo - uma das ruas mais famosas da cidade. Vale arriscar algumas voltas próximas à prefeitura da cidade, onde fica a casa do cantor Alceu Valença. Na pior das hipóteses, você verá as janelas abertas, mostrando duas belíssimas retratações do artista.
Ser filho da cidade é ser, por natureza, artista. O Museu do Mamulengo (rua do Amparo, 59, tel: 081/429-3710) é um ponto imperdível, por reunir mais de mil peças feitas artesanalmente por vários mestres, dentre os quais, bonecos que resumem a mais pura tradição do folclore e Carnaval olindenses.
Mas se você chegar em Olinda fora da época de Carnaval, nem por isso a cidade perde seu brilho. Olinda é festa o ano inteiro e não faltam motivos para música. Todas as sextas-feiras acontece a Serenata Luar de Olinda, percorrendo as ruas e ladeiras do Sítio Histórico, em direção à Praça João Alfredo, a partir das 21 horas. Estar na cidade e deixar de olhar o céu, para curtir a beleza da lua é, para os olindenses, deixar de viver.


