Oito artistas definem participação na Bienal do Mercosul
São Paulo, 07 (AE) - Os galpões do armazém à beira do Rio Guaíba ainda estão sendo reformados para a exposição que vai reunir representantes da arte contemporânea brasileira, chilena, paraguaia, uruguaia, colombiana e boliviana. Mas, apesar das indefinições de patrocínio, oito artistas atuantes em São Paulo convidados para a 2.ª Bienal do Mercosul estão com os projetos fechados para as obras que poderão ser vistas entre os dias 5 de novembro e 9 de janeiro na capital gaúcha.
A comissão paulista terá sua criação exibida no Gasômetro e no Armazém do Cais, um complexo de sete grandes galpões onde um dia funcionaram oficinas de conserto de barcos, na beira do rio. Ao lado dos convidados de outros países, Sandra Cinto, Marco Gianotti, Márcia Grostein, Laura Vinci, Arnaldo Antunes, Walter Silveira, Rochelle Costi e Regina Silveira (as duas últimas, gaúchas radicadas na capital paulista) apresentam os trabalhos que só ganharão sua configuração final no espaço. Olívio Tavares, também selecionado, não conseguiu patrocínio para montar seu trabalho em vídeo, que segundo o curador da representação brasileira, Fábio Magalhães, propunha uma relação entre amor e morte.
O grande denominador comum entre as obras paulistanas é a continuidade de trabalhos recentes. Mas que, apresentadas na exposição, ganharão um sentido novo. Isso pelo fato de a relação com os espaços expositivos (tanto os internos quanto os externos) ser um dos focos da curadoria dessa Bienal.
Desenhos no espaço - Assim, pouco antes de entrar na área do Armazém, os visitantes podem avistar o grande Sky Drawing, de Márcia Grostein, uma peça que invade o campo de visão do espectador em função do tamanho e das diferentes gradações de luminosidade. A artista, que vem trabalhando há algum tempo com as grandes esculturas que se transformam em desenhos no espaço, vai montar uma estrutura férrea de 20 metros de altura ao ar livre. A peça receberá o tratamento de tintas fotossensíveis, que se transformam com a mudança de ângulo da incidência solar.
"Mesmo depois do pôr-do-sol, a peça continua se transfigurando em função da luminosidade da noite", explica ela. Além do jogo com a luz solar, a aplicação da tinta apenas na parte superior do desenho celeste da artista vai provocar, durante a noite, a impressão de que as linhas de ferro estão, de fato, soltas no espaço.
Magalhães conta que a demanda técnica das obras (a predominância de ocupação desta bienal é das instalações e, muitas delas, eletrônicas) determinou que a organização descartasse a idéia de utilizar o espaço Ulbra, como havia sido anunciado. "Estamos tendo de adaptar os espaços do Armazém e do Gasômetro não só conceitualmente e visualmente, como também tecnicamente", conta o curador.
Aduana - Para tanto, o Gasômetro está sendo adaptado para transformar-se no que a organização chamou de Ciberporto. A idéia é simular uma espécie de aduana de portos, onde corredores conduzem os visitantes a terminais de hipermídia e websites, com informações relativas aos trabalhos dos contemporâneos convidados e às criações das salas especiais.
Este ano, serão três delas: uma dedicada a Iberê Camargo
com curadoria de Lisette Lagnado; a segunda com o título Picasso, Cubistas e América Latina, organizada por Magalhães, e uma para a obra do argentino Júlio Le Parc. O suporte informático irá estabelecer as relações entre os trabalhos das salas especiais com a criação latino-americana contemporânea, foco central da Bienal do Mercosul.
Essas ligações também serão feitas, por meio da montagem
entre os convidados. Arnaldo Antunes, conta o curador, vai dividir um dos galpões com o cineasta Arthur Omar. "São dois artistas com trabalhos muito diferentes, mas com a mesma preocupação em estabelecer contato entre as mídias", acredita Fábio Magalhães.
Para a mostra, Arnaldo Antunes criou grandes painéis, na maneira de outdoors, que trazem sua pesquisa sobre a relação entre palavra e imagem. No lado oposto do espaço, estará instalada a versão de Arthur Omar para "Guernica", de Picasso - também um grande painel, mas composto por monitores de vídeo.
Sandra Cinto ocupará um dos galpões com uma instalação que dá continuidade a sua discussão sobre o distanciamento do homem em relação a suas principais referências, no caso, a própria casa.
Aconchego traído - A Tentativa do Impossível transforma um dos nichos do galpão em um cômodo onde cada peça trai a suposta noção de aconchego. Na instalação, cama, estante de livros e escrivaninha são apresentadas em escalas que impossibilitam a sua utilização. E as janelas, que dariam para a vista do rio, são vedadas por tábuas de madeira.
Laura Vinci faz uso oposto das janelas do galpão. No local escolhido para sua mostra, serão montados seus cortes de mármore branco. A idéia da artista é somar à imagem real dos mármores, cenas da paisagem da janela (Rio Guaíba), por meio de projeção. Assim como Laura, Regina Silveira tem apenas a idéia sobre a instalação. A proposta de Regina é mostrar suas Escadas Inexplicáveis, pintura sobre recorte de poliestireno.
A outra gaúcha entre os paulistanos, Rochelle Costi, também expõe a céu aberto. Dela serão mostrados cinco painéis de impressão eletrostática sobre vinil, espalhados de forma a ocupar tanto locais internos como externos aos Armazéns. Ela apresenta imagens da região da Serra Gaúcha, por meio da representação fotográfica de casas de madeira.
Walter Silveira também leva uma instalação que se relaciona com a imagem e a paisagem do lugar. Em O Quartinho 2, o artista apresenta uma sequência de imagens de vídeo sobre paisagens. Único da comissão a participar da mostra com pinturas
Marco Gianotti mostra três grandes telas recentes, onde ele acrescenta às cores esquadrias metálicas de janelas, em mais uma referência à relação entre visão interna e externa, outra marca da representação dos artistas atuantes em São Paulo da Bienal do Mercosul. Além de apoios, como o da Fundação Memorial da América Latina, até agora os únicos investidores confirmados para os projetos da bienal são as empresas Gerdau, Ipiranga, Real e Azaléia.





