Uma artista curitibana, um artista carioca: Estela Sandrini e Hélio Oiticica foram parar em dois livros escritos pela professora e crítica de arte Maria José Justino. O lançamento de ‘‘Estela Sandrini: O Sensível Devaneio da Racionalidade’’ e ‘‘Seja Marginal, Seja Herói - Modernidade e Pós-Modernidade em Hélio Oiticica’’ acontece hoje, às 19 horas, na Casa Andrade Muricy.
A autora, com doutorado em Estética e Ciências das Artes, pela Universidade de Paris e mestrado em Filosofia da Educação, pela PUC de São Paulo, com intensa atividade em Curitiba, comenta que Estela Sandrini tem uma obra que ‘‘fala por si só, guarda mais do que a imagem representa’’. Quanto ao seu trabalho focalizando a artista,‘‘consistiu em descrever o desdobramento de sua pesquisa e fases no correr do tempo’’.
O trabalho, porém, foi além do campo meramente pictórico. A autora entendeu que seria fundamental incluir a vida da artista, utilizando para isso seus depoimentos, poemas de seu pai - que, aliás, foi a primeira pessoa a abrir-lhe as portas da arte -, leituras de críticos e jornalistas a respeito de sua obra, ‘‘as doces lembranças e os guardados de gaveta’’.
Não é, porém, uma biografia. Maria José Justino deixa isso claro:
- Tomei o cuidado de não confundir vida com obra, embora com uma clareza meridiana de que uma tal obra só poderia advir dessa vida.
A produção artística, queira-se ou não, está ligada intimamente com a existência, embora ‘‘de forma curiosa’’, segundo a professora. Da dona de casa à artista profissional, muita água. São 30 anos de carreira, e as telas fixaram esses movimentos.
‘‘Acompanhemos o processo de mudança que vai ocorrendo até ela alcançar um domínio perfeito da cor e da forma, um estágio superior e caloroso da expressão, distanciando-a de um astro frio isento de paixão’’, discorre Maria José. ‘‘Imaginação e trabalho, fragilidade e força, instinto e racionalidade, demônio e santidade, senão as opções, seguramente os trajetos’’.
Hélio Oiticica, criador dos penetráveis, bólides e parangolés que tanto marcaram a arte brasileira, assim como a tropicália (que gerou o movimento musical liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil), era filho de pais anarquistas e assim cresceu, liberto das convenções sociais. Acabaria fazendo o mesmo na arte.
Maria José Justino apresenta-o: ‘‘Não é aquele tipo de pessoa que poderíamos chamar de razoável. Ele estará sempre em busca de situações novas, de desafios, do experimental. Sua arte foi a perseguição sem tréguas da descolonização e do desbloqueio do comportamento, condições para a recuperação do homem das alienações de um cotidiano mutilador’’.
Entre os problemas enfrentados pelo artista, que optou pela vanguarda, estava até mesmo o de ser entendido em sua linguagem, pois ele negava um ambiente ‘‘que respirava folclore e nacionalismo’’, e ao mesmo tempo, buscava fazer ‘‘uma arte interessada’’.
Precursor de artistas e movimentos, transformou-se numa referência obrigatória no País, mas lembra a professora que ele precisou do reconhecimento da crítica estrangeira ‘‘para ocupar o devido lugar entre nós’’, posição esta que se solidificou através dos anos.
• Maria José Justino lança ‘‘Seja Marginal, Seja Herói - Modernidade e Pós Modernidade em Hélio Oiticica’’ e ‘‘Estela Sandrini: O Sensível Devaneio da Racionalidade’’, hoje, às 19 horas, na Casa Andrade Muricy, Rua Dr. Muricy, 915, em Curitiba.

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