ReproduçãoSe Chiquita Bacana realmente existisse, hoje ela pularia o mais cedo possível da cama, vestiria a casca da mais curta e amarela banana nanica e iria, fogosa, dar os ‘‘parabéns a voc꒒ a um certo senhor carioca que faz aniversário. Mas Chiquita não passa de uma personagem e, portanto, não será possível abraçar e beijar João de Barro, o Braguinha, que neste 29 de março de 1997 completa 90 anos de vida. Tais reverências ficarão a cargo de um grupo de amigos - entre eles muitos cantores e compositores - que vai se reunir logo mais à noite, no Rio Palace, em Copacabana, no Rio de Janeiro, para festejar a data com todas as pompas e circunstâncias que uma lenda viva da música brasileira merece.
Mas o Rio de Janeiro não é o Brasil todo. O Brasil todo - pelo menos aquela parte formada por gente cuja memória não se esfumaçou - vai render homenagens a Braguinha. É o mínimo que se pode fazer por esse senhor cuja trajetória de vida se confunde com a própria história do Carnaval. Oh, yes, Braguinha é um dos principais formadores de opinião musical no Brasil.
Em Londrina, a homenagem vai partir da Rádio Universidade FM, que já tem engatilhados dois programas para lembrar os 90 anos do João de Barro da MPB. O primeiro - ‘‘Viva a Música’’, com produção e apresentação de Samira Prioli Jayme - vai ao ar amanhã, das 11 às 12 horas, com reprise na próxima sexta-feira, das 16 às 17 horas. O outro programa ficará a cargo do médico José Luis da Silveira Baldy, um especialista apaixonado pela música brasileira, que com o seu ‘‘Passado a Limpo’’ vai igualmente falar da vida e obra de Braguinha, terça-feira, às 20 horas, com reapresentação no domingo, no mesmo horário.
Braguinha parece estar gostando dessas manifestações de carinhos que vem recebendo por essa data querida. ‘‘Filho, é magnífico completar 90 anos de idade porque estou satisfeito com a vida. Sempre estive satisfeito com vida por isso sou uma pessoa privilegiada. Só tenho que agradecer a Deus por completar 90 anos’’- disse o compositor em entrevista, por telefone, à Folha2.
Braguinha fala gostoso. Pausadamente gostoso. Responde às perguntas com frases curtas, sem dar margens a maiores elucubrações. Porém, os parágrafos se tornam maiores quando se toca em Carnaval. E logo de cara ele vai quebrando seu próprio mito. ‘‘Não me considero o maior compositor de músicas carnavalescas, nem um dos pais do Carnaval. Meu filho, eu sou apenas um compositor’’- diz ele humildemente. ‘‘E quer saber de uma coisa? Eu ainda gosto muito do Carnaval. Não é como antigamente, claro que não. Porém, eu gosto muito dos desfiles das escolas de samba. É muito bacana’’- completa.
Entretanto, para falar de seu ofício, Braguinha se dá ao direito de filosofar um cadinho . ‘‘Ser compositor é uma coisa muito agradável. É como ser pintor, por exemplo. Mas para ser compositor é preciso dom porque estamos falando de arte. Ciência, por exemplo, a gente pode aprender na escola; arte, não’’- analisa ele.
‘‘Quero dançar com voc꒒ Como compositor, Braguinha tem cerca de 500 composições registradas. O número exato nem ele sabe ao certo. Sabe qual foi sua primeira composição mas não se recorda da data. ‘‘É ‘Assombração’ e foi feita na década de 20’’- diz ele. De acordo com a Enciclopédia da Música Brasileira, publicada pela Arte Editora Limitada, a canção foi composta em 1929. As músicas mais recentes, ainda segundo o compositor, foram feitas nos últimos meses. Portanto, permanecem inéditas. São elas: ‘‘A Vida Não Tem Bis’’, ‘‘Da Janela Eu Vejo o Mar’’ e ‘‘Bailarinas’’. Maria Bethânia, provavelmente, foi a última intérprete a gravar uma de suas músicas - ‘‘Mané Fogueteiro’’, registrada em 95.
O fato é que quase tudo o que compôs virou sucesso. Principalmente as marchinhas de Carnaval que atravessaram décadas e movimentos musicais, tais como ‘‘Pirata da Perna de Pau’’, (de 47), ‘‘Pastorinhas’’ (de 38, feita em parceria com Noel Rosa), ‘‘Chiquita Bacana’’ (em 49, feita com Alberto Ribeiro), ‘‘Salve a Mulata’’ (53, com Antonio Almeida), só para citar algumas das mais populares nos dias de hoje.
Pelo menos duas têm histórias interessantes. ‘‘Touradas em Madrid’’ venceu o concurso carnavalesco de 38, mas acabou sendo desclassificada por ter sido apontada como um ritmo estrangeiro, o paso doble. Mas já tinha caído no gosto do povo e daí... A consagração da música e principalmente da obra de Braguinha aconteceu na semifinal da Copa do Mundo de 50 quando o Brasil ganhou da Espanha de 6 x 1. Para espezinhar os adversários, o Maracanã, em uníssono, cantou ‘‘Touradas em Madrid’’. Foi a glória para o compositor.
Já a outra música foi a responsável pelo retorno de Braguinha à mídia reposicionando-o, consequentemente, na galeria dos compositores mais populares do Brasil. Trata-se de ‘‘Balanc꒒, que Gal Costa regravou em 79 no disco ‘‘Gal Tropical’’. O primeiro registro foi feito em 37 por Carmen Miranda. ‘‘A gravação de Gal Costa foi muito útil e agradável. Ela é, sem dúvida nenhuma, uma das maiores cantoras que o Brasil já teve’’- reconhece Braguinha.
‘‘Meus olhos ficam sorrindo’’ Ninguém da nova geração de cantores brasileiros, talvez preocupada mais em conceitos do que propriamente em resgates, redescobriu a música de Braguinha. Vários podem ser os motivos. O principal, talvez, seja pelo fato de que o nome de Braguinha esteja mais associado às marchinhas carnavelescas o que não corresponde totalmente à verdade.
Ele passeou por diversos estilos - samba, valsa, marcha, baião, fox canção, samba canção, polca, corta jaca, entre outros. ‘‘O ponto alto da personalidade artística dele realmente são as marchinhas, mas suas outras facetas não ficaram aquém. Ele foi um excelente letrista de músicas românticas, feitas principalmente na década de 30’’- lembra o médico José Luis da Silveira Baldy. Nesta fase, ele cita, entre outras, ‘‘Sonhos Azuis’’ , ‘‘Amar Até Morrer’’, ‘‘Eu Sei de Alguém’’.
Braguinha teve inúmeros parceiros, como Noel Rosa, Dorival Caymmi (‘‘Amor delicado’’, de 46), Almirante, Alcir Pires Vermelho, Antonio Almeida, entre outros. Porém, foi com Alberto Ribeiro que ele compôs grande parte do seu cancionceiro. A dupla é responsável por dezenas e dezenas de músicas. Entre elas, as ‘‘Cantores de Rádio’’ (juntamente com Lamartine Babo, de 36) e a belíssima e imortal ‘‘Copacabana’’, que alguns estudiosos alegam ter sido o pontapé inicial da Bossa Nova.
Talvez porque Dick Farney tenha imprimido a ela, em 46, um toque mais cool na interpretação. Braguinha discorda. ‘‘Não tem nada de precurssor na música. ‘Copacabana’ é apenas um samba, uma música como outra qualquer, mas uma bonita música sem dúvida’’á- diz ele. Nas mãos desse senhor de 90 anos nasceu a letra de uma das mais bonitas músicas já feita no Brasil - ‘‘Carinhoso’’, letrada em 37, vinte anos depois de ter sido composta por Pixinguinha.
Braguinha lembra a história: ‘‘Eu fiz a letra a pedido da cantora Heloísa Helena, que iria cantar música brasileira pela primeira vez no Teatro Municipal, no espetáculo ‘Parada das Maravilhas’. Ela disse que o Pixinguinha tinha uma música linda e perguntou se eu gostaria de colocar a letra. Ela conversou com o Pixinguinha que disse ter gostado da escolha dela. Fiz a letra num dia’’. O dia a que ele se refere é 28 de maio de 1937.
O que Braguinha desconhece - ou não se lembra - é que, anteriormente, Orlando Silva havia pedido para Pedro Caetano colocar a letra em ‘‘Carinhoso’’. A descoberta foi feita pelo pesquisador Rui Ribeiro, autor de ‘‘Orlando Silva, o Cantor Número um das Multidões’’. A letra de Caetano sequer foi encaixada à música. E, cá pra nós, melhor assim, porque não exalava poesia. A letra tinha que ser de Braguinha. Ou João de Barro. Ou, simplesmente, Iluminado.

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