O Festival Internacional de Londrina (Filo) concluiu no último final de semana mais duas oficinas dos Projetos de Maio. Ambas tiveram a participação da comunidade, em parceria com a Secretaria Municipal de Ação Social.
A oficina de mamulengos ministrada pelo pernambucano Xando da Fonseca, de Olinda, reuniu cerca de 30 pessoas que aprenderam as técnicas básicas de criação de bonecos feitos com material reciclado, especialmente garrafas plásticas. O mamulengo tradicional é feito com mulungu (uma espécie de madeira mole utilizada para fazer gamelas e utensílios domésticos). ‘‘Resolvemos usar as garrafas pet, que são úteis demais. Com isso, também estamos tirando da rua o lixo que contribui para a destruição da natureza. Esse material leva muitos anos para ser destruído’’, diz Mestre Xando.
Com as garrafas – além de outros tipos de reciclados – os oficineiros ensinaram a fazer bonecos articulados, jogos didáticos, máscaras e até instrumentos musicais. O resultado de oito dias de trabalho poderá ser visto hoje, em performance às 17 horas, em frente ao Cine-Teatro Ouro Verde.
Nesse projeto, Mestre Xando trabalhou com monitores e dois adolescentes de cada um dos 12 núcleos de convivência dos bairros Jardim Espanha, Jardim União da Vitória, Jardim Nossa Senhora da Paz, Jardim Santa Fé, Jardim Santa Rita, Vila Ricardo e conjuntos Avelino Vieira (Panissa), José Belinati, Novo Amparo e Mister Thomas. Paralelamente, foi realizada outra oficina com artistas plásticos e professores da cidade.
Artesão, bonequeiro e artista plástico, Mestre Xando faz parte do grupo pernambucano Bagulhadores (catadores de lixo) do Mió (do melhor), responsável pela confecção de mamulengos gigantes, comum em festas populares nordestinas. Alguns desses bonecos serão vistos também no Filo. É que participantes da oficina vão confeccionar peças gigantes para compor a instalação do Cabaré (ver texto nesta página).
Outra oficina, concluída no sábado, reuniu alunos da Escola Oficina Pestalozzi e menores que vivem em situação de risco no mocó do anfiteatro do Zerão. O coordenador foi o bailarino e coreógrafo colombiano Alvaro Restrepo, que em seu país desenvolve um trabalho semelhante com menores do Grupo do Colégio do Corpo. Ele apresentou esses garotos, hoje bailarinos, a adolescentes da comunidade londrinense que fizeram a oficina ‘‘Expressão Corporal X Educação Física’’.
Durante seis dias, Restrepo trabalhou pela manhã com alunos da Escola Oficina e, à tarde, com os menores de rua. Nesse último caso, o primeiro passo foi estabelecer uma relação com os adolescentes e tentar superar a dificuldade de diálogo, na tentativa de trazê-los para o projeto. Doze menores foram a primeiro encontro. Ao final, cinco concluíram a experiência.
No último dia da oficina, Restrepo resolveu levar os dois grupos, mais os garotos colombianos, para uma sala da Universidade Estadual de Londrina, com o intuito de fazer uma experiência de integração. Auxiliados pelos bailarinos do Colegio Do Corpo, os menores realizaram exercícios de expressão corporal, equilíbrio, manipulação, entre outros. A intenção era apresentar a eles o mundo da dança, da arte, da cultura e do autoconhecimento.
Dessa oficina, participaram três garotas que vivem no mocó do Zerão. Uma delas teve seu potencial artístico evidenciado no trabalho. ‘‘O que me chamou para a oficina foi a dança. Não sabia nada dessa coisa de potencial. Eu queria é ser bailarina’’, diz Bárbara, de 15 anos.
Desde os seis anos de idade, a menina vive fora de casa. Ela conta que nunca conheceu o pai e que a mãe já é falecida. ‘‘Morava com meu avô, mas a gente brigava porque eu pegava dinheiro dele para comprar droga. Aí ele me colocou na casa-abrigo. Fugi e fui morar na rua’’, conta. Bárbara comenta que nesses seis dias aprendeu a ser mais calma depois que conheceu exercícios de concentração e manipulação corporal. Antes mesmo do final do curso, ela optou por voltar para o abrigo.
Outra que resolveu voltar para um albergue foi Leila, de 15 anos, moradora do mocó há dois anos. A garota assume que não imaginava o que seria a tal oficina e até tinha a impressão de ser alguma coisa chata. ‘‘Eu queria ser modelo e por isso penso em mudar de vida’’, salienta. ‘‘Fiz a oficina e vi que eles vieram para tentar ajudar a gente’’, concluiu.
A oficina com os menores acabou. Alguns voltaram para os albergues, outros preferem continuar nas ruas. Resta saber que tipo de trabalho será realizado para dar continuidade ao processo com os adolescentes.

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