OFICINA INVENTA MODA
No ano 0 de todas as artes, o Festival Internacional de Londrina também é moda e trabalho comunitário. Funcionando desde o início do mês, a Oficina de Moda é mais um projeto do Filo, desta vez em parceria com o curso de Estilismo em Moda da UEL. Professores e alunos do curso têm trabalhado todas as noites de maio com as mulheres do Jardim União da Vitória, produzindo roupas e peças de decoração com o aproveitando de sobras de tecidos.
Comunidade carente trabalhando com sobras de tecidos e transformando tudo em moda? Sim, você já ouviu isso antes. É que a base da Oficina de Moda é toda inspirada no bem-sucedido projeto Coopa Roca. Criada no início da década de 80 na ex-favela (hoje promovida a bairro) carioca Rocinha, a Cooperativa de Artesãs e Costureiras da Rocinha é uma Organização Não-Governamental que desenvolve trabalhos artesanais de vestuário e decoração.
E as peças produzidas pelas artesãs da Rocinha já foram parar nas páginas de revistas de moda, nas passarelas do Phytoervas Fashion, num desfile em Berlim, numa feira na Espanha e até no guarda-roupa da modelo Naomi Campbell. E por trás de todo o sucesso da Coopa Roca, além da criatividade e força de vontade das artesãs, está a socióloga Maria Teresa Leal, idealizadora do projeto e que esteve em março em Londrina para apresentar a experiência carioca. Segundo a socióloga Maria Teresa, o cooperativismo está sendo uma tábua de salvação neste momento em que o trabalho está em crise no mundo todo.
Maria Teresa também participou da escolha da comunidade que mais se adaptasse às características do projeto. Além de Maria Teresa, participaram da seleção que chegou ao Jardim União da Vitória a professora do curso de moda da UEL Cleusa Fornacieri e a diretora do Filo Nitis Jacon.
Hoje, cerca de 20 mulheres da Associação A União Faz a Força participam da Oficina de Moda, onde trabalham suas habilidades e aprendem outras, como crochê, bordado, corte e costura e fuxico. Na semana passada, uma equipe de artesãs da Coopa Roca passou alguns dias na cidade, ensinando as técnicas desenvolvidas no Rio de Janeiro e, também, trocando experiências.
As artesãs do União da Vitória passam cerca de três horas diárias no Centro de Conveniência do União da Vitória. O trabalho de construção de tecidos e das roupas e acessórios é monitorado por sete alunas de moda da UEL, além dos professores Cleusa Fornacieri e Nélio Pinheiro. Todos são voluntários do projeto e não reclamam, apesar de trabalharem até mesmo aos sábados e domingos.
Aqui é um aproveitamento de tudo, desde as habilidades das participantes ao material que é todo reciclado, explica Nélio Pinheiro. Para o estilista e professor de moda, a oficina está sendo uma escola e tanto. Eu ensino e também aprendo muito. É um processo coletivo, completa o estilista que acredita que a criatividade brasileira é nítida, aqui se reaproveita tudo.
Algumas confecções londrinenses visitadas em março pela coordenação do projeto doaram sobras de tecidos para a oficina de moda. E é com este material que as artesãs estão trabalhando. O resultado final deve ser visto a partir do próximo mês em uma interferência a ser agendada pelo Filo.
Não vejo a hora de ver os meus bordados num desfile ou numa loja, anima-se Sandra Regina Lisboa Almeida Oliveira, que além dos bordados também é craque no fuxico. Me chamam de fuxiqueira, mas é só porque sou professora de bordado e fuxico, brinca Sandra.
E bom humor é o que não falta na oficina, onde o colorido dos retalhos de tecido dá o tom às noites animadas. Entre uma tesourada e outra, sempre arrematam uma conversa, seja sobre os filhos, questões domésticas ou é claro, planos para o futuro.
Irineusa Alves Tenório, presidente da Associação das Mulheres A União Faz a Força, diz que entrou para o projeto para aprender um pouco mais e também por causa da carência de trabalho. Acostumada ao trabalho artesanal, dona Neusa já trabalhava com tapeçaria em sisal. Mas apenas como uma ajuda de custo, lembra. Agora, pode ser uma fonte de trabalho, completa a artesã. Ela acredita que o projeto da Oficina de Moda vai garantir o futuro dos adolescentes da comunidade. Tanto é que as filhas adolescentes das participantes também não perdem uma reunião da Oficina.
Caso de Daliane Ferreira de Andrade, 13 anos, que está aprendendo a fazer fuxico e que sonha em aprender a costurar, como a mãe. Já até ajudei a fazer uma roupa aqui na Oficina.
O objetivo da oficina de moda do Filo é, primeiro demonstrar que a moda não é fútil e também é economicamente viável em todos os setores, conta Cleusa Fornacieri. Também queremos resgatar a dignidade familiar destas mulheres, que vão poder trabalhar perto de casa, produzindo coisas vendáveis que serão comercializadas fora da comunidade delas. As peças produzidas na oficina terão uma valor agregado a elas por causa da cara de moda adquirida aqui, explica a professora, que também enfatiza para o aprendizado das alunas do curso de moda. Aqui elas aprendem o que é a vida real, e também o dever social que têm em transmitir o conhecimento adquirido, explica.
No início, pensei no meu currículo, mas agora participo da oficina por prazer, conta a aluna Ana Luiza Olivete, do terceiro ano. No começo trabalhamos ensinando o que é uma coleção, fizemos os desenhos das peças, que foram mostrados e aprovados pelas participantes, conta, animada.
O que ninguém quer mesmo é que o trabalho da oficina termine com o final do Filo. Já temos até lista de espera de outras comunidades que querem o projeto, conta a professora Cleusa.





