O tradicional agito de verão com a Oficina de Música de Curitiba, promete ser diferente em janeiro de 2002. O evento chega à 20 edição com mudanças na direção artística. Alexandre Klein, um dos maiores oboístas do mundo, assumiu o posto, e graças ao conceito que goza nas altas esferas musicais, conseguiu amealhar um grupo de pesos-pesados para formar um inédito Conselho de Mentores do evento. São eles Daniel Baremboin, Hopkinson Smith, John Neschling, Jordi Savall e a diretora do Teatro Municipal de São Paulo, Lúcia Camargo.
Como resultado do empenho de Klein, o corpo docente será formado por nomes estelares, a começar por ele próprio, tendo ainda o violoncelista Antonio Menezes; Chaim Taub, que durante 25 anos foi o primeiro violino da orquestra Filarmônica de Israel; Oswaldo Ferreira, português radicado na Alemanha e assistente de Claudio Abbado na Filarmônica de Berlim; Michel Debost, flautista que substituiu Jean-Pierre Rampal, tanto na Orquestra de Paris como no Conservatório de Paris; o violista Don McInnes, que tocou com praticamente todos os grandes regentes, entre eles, von Karajan.
Com esse elenco, naturalmente não dá para abrir as salas a iniciantes. Estes serão cursos para alunos selecionados, pois caso contrário ''seria um desperdício'', como diz Janete Andrade. Não teria sentido trazer professores de altíssimo nível para ensinar iniciantes a lerem música. ''Isso é uma obrigação que a gente deve ter cotidianamente. Ainda mais numa cidade como Curitiba. Se a gente não está conseguindo dar conta disso, então não tem mais o que fazer. Daí a coisa vai estar bem feia''.
Os 65 cursos de música erudita que formam a primeira parte da 20 Oficina a segunda parte, com 53 cursos, destina-se à música popular têm a marca da alta qualidade. Daí a tendência de se voltar ao aperfeiçoamento dos jovens instrumentistas. ''O que não queremos é ter aluno que não sabe trocar a primeira para a segunda posição do violino numa aula com músico da Filarmônica de Israel. Mas as pessoas podem vir como ouvinte'', explica.
O requinte não significa, necessariamente, que haja um distanciamento do festival com o público. No sentido de envolver a comunidade diversas atividades serão realizadas no período, entre elas cursos realizados nas ruas da Cidadania, em horários especiais compatíveis ao público. Também programam-se concertos em locais onde seus habitantes não podem sair, como presídios, asilos e orfanatos.
Dizendo-se ''rata de festivais'', Janete Andrade trabalhou durante anos nas coordenações dos eventos de Cascavel, Londrina e Maringá, quando respondia por um dos setores da Secretaria de Estado da Cultura. Nesses tempos teve oportunidade de constatar que não havia critérios na execução musical.
O aluno podia estar tocando um instrumento há dois anos, e outro há dez, que ambos eram escalados para o mesmo repertório. ''Está faltando às pessoas ter entendimento musical, inteligência musical'', afirma.
Por exemplo, não basta sair tocando afinadamente a Suíte de Bach para violoncelo. Tem que ver o que está além da música, quais as intenções do compositor. ''Acho que está faltando nas pessoas é a questão da retórica musical'', insiste Janete. Infelizmente o problema é generalizado e não se restringe aos festivais. Estamos num tempo em que as escolas carecem de profundidade de análise musical. O que existe hoje é pura e simplesmente a banalização. ''Quer evitar isso no que puder'', diz a teimosa Janete, referindo-se à Oficina de Música.

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