Com pouco estudo, mas com grande talento e uma experiência de vida que vale à pena ser compartilhada, o artesão Valdivino Amaral Brandão desde o início do ano tem transmitido o seu conhecimento artístico para 120 crianças de 8 a 9 anos de duas escolas municipais de Londrina - Professor José Gasparini e Professor Moacyr Teixeira. ''Artista do plástico'', como gosta de se intitular, com simplicidade e simpatia fala às crianças do poder de criação de brinquedos a partir de materiais recicláveis, como garrafas pet e jornais velhos. Utilizando cola e arame, esculturas de bonecos são criadas e encantam os olhos de quem produz. Dinossauros, com cabeça móvel, também chamam a atenção da criançada. Todos os brinquedos produzidos durante a oficina - que acontece duas vezes por semana, durante duas horas - podem ser levados pelos alunos para casa.
Após anos trabalhando como garçom, hoje, aos 42 anos, Brandão está feliz em poder viver há três anos unicamente do seu trabalho artístico. ''Desde criança fazia artesanato e, quando adulto, nas horas vagas estava sempre criando alguma coisa'', lembra. Antenado com as questões ambientais, transformou o incômodo de ver produtos recicláveis serem descartados de forma inconsciente em arte. Inicialmente enfeitou a frente da sua casa com várias embalagens de garrafas pet. A ''decoração ecológica'' chamou a atenção, sendo que depois chegou a construir uma árvore de garrafas plásticas que foi exposta no ano passado no Museu de Arte de Londrina.
Em 2003, o ''pulo do gato'' aconteceu com a confecção de carrinhos de garrafas pet, em que são utilizadas 9 embalagens para cada brinquedo. Confeccionados com capricho e habilidade, os carrinhos deram visibilidade ao trabalho artesanal de Brandão, que vendeu até agora 15 mil unidades do modelo tradicional. Com orgulho, relata que 70% da sua casa própria é fruto desse trabalho que a natureza agradece também, já que 135 mil garrafas pet deixaram de ser jogadas no meio ambiente. Contando com as oficinas que vem realizando, Brandão calcula que cerca de 300 mil garrafas já devem ter passado pelas suas mãos.
''O meu trabalho reforça a questão ambiental e, de forma lúdica, tento passar essa mensagem'', afirma. ''E eles adoram esse contato direto com o material, de sujar as mãos e saber que de um material que poderiam jogar no lixo irá surgir algo interessante e divertido'', acrescenta.
E acompanhando uma das aulas com alunos da Escola Municipal José Gasparini dá para conferir essa impressão. No meio das garrafas pet, folhas de jornais, cola e arame muitas descobertas podem ser feitas. O trabalho também inclui noções de kirigami (arte de recortar papel), que ajudam no entendimento de proporções para a confecção de outros objetos de plástico e papel.
Com os bonecos feitos com arame e papel, cada um é ''batizado'' com uma característica profissional. Tem o violinista, o cantor, o jogador de futebol e até a roceira. Os pés grandes - que lembram os do famoso quadro Abaporu (veja box)- são marca registrada, dentro dessa releitura livre. Até agora os alunos já confeccionaram carrinhos, porta-retratos e bonecos.
Brandão também conta com o auxílio da instrutora Laryssa Rayana Garcia Reis, 18 anos, durante a oficina, e espera que essa experiência também motive a formação de novos artistas. ''Eu já tinha trabalhado antes com crianças, mas não dessa forma. Estou gostando muito de aprender sobre artesanato e pretendo me aprimorar'', comenta Laryssa. ''Torço para que os alunos percebam o prazer do fazer artístico e do quanto isso pode ser uma alternativa profissional. Eu costumo brincar que 'eu como arte, eu respiro arte''', ressalta.
A diretora Márcia Gomes Semprebom e Daniela Masson, coordenadora das oficinas pedagógicas, consideram ''um privilégio'' terem a oficina de Brandão na escola, que funciona em sistema integral. ''O mais importante não é a reciclagem em si, mas o fim que ele dá a isso, transformando o material reciclável em brinquedos e arte. Ele também leva às crianças uma cultura que é resultado do seu esforço pessoal, das suas leituras, mesmo sem ter estudado em uma universidade. Mostra também que a reciclagem pode ser uma forma de sustento'', destaca Daniela. ''Além de ser um artista, traz toda uma bagagem pedagógica interessante, conseguindo motivar as crianças com paciência e atenção'', complementa Márcia.
O projeto ''A arte de reciclar para crianças'' tem apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), mas Brandão também realiza palestras e oficinas em eventos de forma independente. Mais informações pelo tel. (43) 8411-6199. Já no próximo sábado, a partir das 14 horas, haverá a oficina ''Maria das Bonecas'', com a artesã catarinense Islândia de Campos, na loja Ciranda (R. Jorge Velho, 190). As bonecas serão confeccionadas com material reciclado. Podem participar crianças a partir de 6 anos. As vagas são limitadas e o investimento é de R$ 15. Mais informações pelo tel. (43) 3325-6981.

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