Obstáculos de fato
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de dezembro de 2012
Ana Paula Hinz<BR>TV Press 
A teledramaturgia costuma abordar temas e fatos relacionados a eventos históricos. Muitas vezes é justamente a partir de algum acontecimento importante da realidade que surgem os enredos. É o caso da pacificação do Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro. O processo, iniciado por meio de uma invasão militar em novembro de 2010, serviu de inspiração para que Glória Perez escrevesse "Salve Jorge", atual novela das nove da Globo. "A pacificação foi um momento histórico. O país parou", exalta a autora.
Outro folhetim que teve fatos da história do Brasil como estímulo para a criação de sua trama foi "Cidadão Brasileiro", exibida pela Record em 2006. A partir da trajetória do personagem Antônio Maciel, o autor Lauro César Muniz mostrou as transformações do país nas décadas de 1950 e 1960 e a ditadura militar na década de 1970. Já "A Padroeira", criada por Walther Avancini e escrita por Walcyr Carrasco, foi exibida pela Globo em 2001 e teve como ponto central o descobrimento da imagem de Nossa Senhora Aparecida no Rio Paraíba, em São Paulo. Mais tarde, o acontecimento considerado verídico culminou na proclamação da santa como padroeira do Brasil.
Além de inspiração, fatos como esses servem como pano de fundo e são fundamentais para que os personagens tenham constantes reviravoltas em suas tramas. Foi pensando nisso que os autores João Ximenes Braga e Claudia Lage resolveram ambientar "Lado a Lado", atual folhetim das seis da Globo, no início do século XX e abordar eventos históricos importantes como a Revolta da Chibata, a Revolta da Vacina e a reforma urbana de Pereira Passos. "Tudo isso está na novela, mas ela não é sobre isso. Os eventos históricos surgem na trama quando eles geram conflito nos nossos personagens", analisa João Ximenes Braga.
A relevância do contexto para injetar doses de drama e ação na história é tanta que, em 2008, Alcides Nogueira escreveu o remake de "Ciranda de Pedra" mudando seu período histórico. Na versão original, de 1981, escrita por Lygia Fagundes Telles, o enredo se passava na década de 1940. Já na adaptação, autorizada pela autora, o ano escolhido foi 1958. Além de querer mostrar as mulheres em uma posição menos submissa na sociedade, Alcides quis destacar fatos emblemáticos do país, como as eleições daquele ano e a conquista da primeira Copa do Mundo da seleção brasileira. "É o ano em que muita coisa acontece em todos os setores, na economia, na política, nas artes. É quando o Brasil entra, definitivamente, na modernidade", destaca Alcides.
Exibir enredos com acontecimentos verdadeiros também inclui ultrapassar obstáculos. Um deles é a forma como pessoas reais são mostradas nas produções. A minissérie da Globo "Desejo", de 1990, retratava os acontecimentos que culminaram no assassinato do escritor Euclides da Cunha por Dilermando de Assis, amante de sua esposa Ana. Para escrever o texto da protagonista, personagem de Vera Fisher, Glória Perez se prendeu ao depoimento que a personalidade deu à polícia quando o crime ocorreu. Tudo para não distorcer a versão aceita pela justiça na época.
A maioria das produções, porém, cria tramas livremente inspiradas em fatos verdadeiros e/ou nos livros que os narram, o que permite que elas não precisem ser tão fiéis aos eventos. "Essas Mulheres", exibida pela Record em 2005, teve como base três livros de José de Alencar "Senhora", "Diva" e "Lucíola" e misturou os detalhes históricos de cada um para montar uma versão dramatúrgica do século XIX.
Já na minissérie "A Casa das Sete Mulheres", de 2003, a personagem Manuela, vivida por Camila Morgado, participa da Guerra dos Farrapos como enfermeira. Na história real, no entanto, não há registros de que a gaúcha tenha feito parte desse evento. "Algumas infrações são necessárias. A televisão tem necessidades narrativas", opina a autora da trama, Maria Adelaide Amaral.
Ter liberdade para criar novos elementos para a história ou escolher determinadas abordagens também podem causar problemas para os autores. Foi o que aconteceu com Tiago Santiago, que foi acusado por militares da Reserva da Aeronáutica de parcialidade ao mostrar o Regime Militar da década de 1960 em "Amor e Revolução", exibido até o início deste ano pelo SBT. Apesar dos riscos, o autor acredita que mostrar a história do país por meio da teledramaturgia tem uma grande importância social. "É essencial conhecer a própria história para que não se repitam erros. A trama mexeu com feridas abertas. A questão dos desaparecidos ainda não terminou", opina.
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