Artistas sempre tiveram o desejo que suas obras chegassem ao maior número de pessoas possível. Mesmo quando fazem obras densas em sua significação, difíceis de serem assimiladas em sua forma, de acesso intelectual restrito a um pequeno grupo, seus interesses sempre foram o de disseminar ao máximo suas visões de mundo. A arte quer se transformar em popular e pública e passear para fora dos museus com a mesma naturalidade com que é vista dentro deles.
Mas é claro que a idéia do que seja arte pública e obra pública podem causar certa confusão em quem vê uma escultura de ferro, bronze, mármore na frente de um edifício, ou no centro de uma praça e não vê nenhuma diferença nela estar ali ou em qualquer outro lugar. Porque este geralmente é um trabalho feito sob encomenda, sem diálogo com o seu entorno. Falta-lhe tensão, confronto, ou mesmo a preocupação de completar uma idéia de território de uso comum.
Por outro lado, por que uma peça feita para ser pendurada em uma parede interna, um objeto como um livro de artista, gravuras, ou mesmo desenho deixariam de ser arte pública, mesmo não sendo obras públicas? Elas não são menos ‘‘de todo mundo’’ por estarem no atelier do artista ou em coleções particulares, são? De qualquer forma, colocar essa questão já é uma tentativa de incluir tudo em um pensamento que seja público.
A utilização do espaço público como suporte às criações não precisa ser, necessariamente, algo que perdure na paisagem. Intervenções, performances, objetos precários, perecíveis, deslocamentos de um ou outro detalhe na paisagem podem causar tanto impacto quanto qualquer obra monumental feita para lembrar uma passagem histórica.
Na década de 80, particularmente na cidade de São Paulo, surgiram vários grupos e pessoas que fizeram do ‘‘grafite’’ um meio eficaz para a apresentação de seus trabalhos. Eram, em sua maioria, jovens que circulavam fora do mercado da arte. Com sua ‘‘rainha do frango assado’’, Alex Vallauri inquietava os transeuntes da ‘‘paulicéia’’ com desenhos de botas femininas e uma garota segurando um frango, pintado com spray nos muros da cidade. Logo, o túnel da Dr. Arnaldo se transformaria na caverna de Lascaux contemporânea, totalmente tomado por imagens das mais diversas, sendo cada pedaço de parede disputado democraticamente entre os vários artistas, como os do Tupinãodá, Rui Amaral, Artur Lara e vários outros, que entenderam o tecido urbano como superfície pictórica. E o epicentro do movimento foi a Vila Madalena, o bairro boêmio onde moravam ou tinham atelier a maioria destes artistas. Na exposição em cartaz este mês, na Casa das Rosas, na Av. Paulista, que juntou alguns desses nomes, houve um debate e vários artistas jovens, com produções recentes, puderam levar seu trabalho lá, em um dia, para um debate que relacionasse essas produções diversas.
No Rio de Janeiro, um grupo de 20 artistas denominado Atrocidades Maravilhosas, realizou em abril de 2000 uma série de intervenções na cidade utilizando-se de milhares de cartazes lambe-lambe, com imagens que surpreendiam o transeunte em sua rotina. Surgido em consequência da pesquisa de mestrado de Alexandre Vogler, esse trabalho coletivo teve o mérito de lançar luz em um debate que envolve não só a questão da arte pública, mas da autoria coletiva das obras, ainda que cada artista tenha criado seu próprio trabalho. Em uma delas, aproveitando o movimento do espectador/passante, o artista Felipe Barbosa imprimiu três imagens de uma ema correndo, dando a impressão de uma cena de desenho animado. Em outra, o artista Arthur Leandro, tirou a foto de um ânus e escreveu à sua volta: ‘‘círculo privado/esfera pública’’, mostrando que as tensões entre intimidade e exposição pública possuem outros entornos além do limite físico e que nem tudo o que é público está tão acessível, assim, a todo mundo!
[email protected]

mockup