Você, que a duras penas sobreviveu à enxurrada de tolices, banalidades e agressões em que se transformou o cinema para menores na segunda metade do século passado até nossos dias, por acaso se recorda da primeira vez que assistiu ''O Balão Vermelho'' ?
Porque, se estiver na faixa dos 50 ou até mais um pouquinho, e foi cinéfilo assíduo e sempre morou por aqui, deve se lembrar: o velho Cine Londrina, antes de ser Cinerama (ali no Calçadão onde hoje é o Banco Itaú entre o Banco do Brasil e o Banco Real...) exibiu lá por princípios da década de 60 este curta-metragem de 34 minutos, como complemento de um documentário igualmente inesquecível, ''Se Todos os Homens do Mundo...''. Então é muito provável que tenha visto. E jamais se esquecido daquela experiência.
Agora, se você estiver no lado mais jovem da trincheira - criança, adolescente ou adulto, pouco importa - e nunca viu o filme, nem tudo está perdido: agarre a chance e venha conhecer esta pequena, suave peça de câmara, esta delicada obra-prima que o cinema francês legou à antologia do lirismo cinematográfico. ''O Balão Vermelho'', acompanhado de ''O Cavalo Branco'', está em (re) lançamento a partir de hoje, inaugurando a sessão vesperal do Cine Com-Tour/UEL, diariamente às 4 da tarde.
Único curta-metragem na história da Academia a ganhar o Oscar de melhor roteiro original, ''O Balão Vermelho'', também Palma de Ouro na categoria, foi criado pelo cineasta Albert Lamorisse em 1956 - ele morreu em plena atividade em 1970, aos 48 anos, em acidente de helicóptero no Irã enquanto colhia imagens para um documentário. ''Lê Ballon Rouge'' narra a história de Pascal, garoto de 9 anos (filho de Lamorisse) que vive numa Paris suburbana e bucólica. A vida dele é ordinária até o dia em que um estranho balão vermelho flutua misteriosamente sobre sua existência...e decide ficar ao lado dele. É uma adoção, sem dúvida.
O balão mágico tem atributos semelhantes aos de um bichinho de estimação. Não importa se Pascal segure a cordinha ou não, o balão o segue fielmente em sua jornada diária, ida e volta à escola, e lojas e passeios. O condutor do bonde (e algum outro veículo seria mais adequado ?) se recusa a deixar o balão à bordo e então a dupla corre até a escola, onde o balão espera do lado de fora até a hora da saída. Quando um professor antipático pune Pascal, o balão provoca o ''vilão'' com uma espécie de hilária coreografia sobrenatural. E o balão vermelho até mesmo encontra um companheiro, um balão azul levado por uma garotinha.
Seria maldade exemplar antecipar o trecho final da narrativa. O fato de que Lamorisse tenha conseguido envolver este conto com tamanha e genuína emoção é sem dúvida uma façanha de mestre, e que não encontra no cinema paralelo à altura. Há dois anos o diretor taiwanês Hou Hsiao-hsien fez uma releitura contemporânea com ''O Vôo do Balão Vermelho'', que mostrou no Festival de Cannes. Não é uma refilmagem, mas antes uma homenagem, uma tentativa de recapturar uma certa magia parisiense. Mas a receita original de Lamorisse permanece irretocável, e com lugar de honra na lista de imagens essenciais. Atenção, adultos que forem sozinhos ou levarem os filhos: não se esqueçam de contemplar a tela com olhos e alma infantis.
Realizado em 1953, três anos antes de ''O Balão Vermelho'', menos conhecido e com carreira internacional mais discreta, ''O Cavalo Branco'' - Prêmio Especial do Júri em Cannes - é um média metragem também assinado por Lamorisse, e que por méritos próprios adquiriu o direito e a honra de constituir este programa duplo que está correndo mundo desde o ano passado em relançamento com cópias restauradas. Ambos os títulos, narrados praticamente sem diálogos, somente apoiados na trilha musical e em imagens preciosas, se situam na fronteira, na linha divisória entre o documental, o real e a fantasia poética.
Na região da Camargue, sul da França, o dia-a-dia de um menino, Folco, que vive da pesca de subsistência em meio à natureza com seu melhor amigo, um cavalo branco líder da manada de corcéis selvagens. Nas andanças e passeios, experimentam a sensação de plena liberdade, pouco comum aos seres humanos. Mas o cavalo, justamente por esta característica libertária, torna-se objeto da cobiça de alguns homens, que tentam capturá-lo.
O filme é belo, e reserva ao espectador acima de certa idade uma alegoria até certo ponto perturbadora. Para além de aventura juvenil romântica, ''O Cavalo Branco'' na verdade contém um discurso sobre a eterna batalha do Bem contra o Mal, e que somente pode ser interpretado como a amarga reflexão de um Lamorisse vivendo momento de angústia existencial no período pós Segunda Guerra Mundial. O final do filme não deixa dúvidas sobre o que significa o ódio, e o que pode estar na raiz de um conflito bélico irremediável.

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