Obras mais que personalizadas
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segunda-feira, 05 de abril de 2010
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
Quem adora livros já sentiu a decepção de pegar uma obra, às vezes nem tão antiga, e encontrar a lombada descolando, as páginas soltas ou coladas de um jeito que dificulta a leitura. Na era dos e-books, ainda tem muita gente que gosta de sentir a textura da capa e a gramatura do papel, o cheiro que o livro exala, o tipo de suas letras.
Mas pouca gente sabe que não há muito mistério na encadernação. Utilizando elementos simples, como vários tipos de papéis, estilete, régua, pincel, linha e cola, em duas horas é possível montar uma edição caprichada de 144 páginas. Foi o que fez o artesão Ernesto Kramer, durante uma aula demonstrativa na Vila Cultural Alma Brasil, realizada na semana passada.
''O objetivo da encadernação é fazer com que a escrita seja legível, possa ser manipulada com facilidade e tenha durabilidade'', simplificou Kramer, para depois mostrar que é nos detalhes que a encadernação manual se diferencia. Do modo como fura o papel e costura cada caderno ao reforço no acabamento e à escolha dos materiais, cada passo é elaborado de forma minuciosa. ''Tem que procurar a perfeição, para depois ter orgulho do produto bem-feito. As pessoas dizem que é preciso ter paciência, mas não. Quando se faz o que gosta, a paciência não é necessária.''
Embora demande bastante dedicação, a encadernação artesanal ensinada por Kramer é simples e possibilita uma grande variedade de formatos e opções de uso - de blocos de anotação a cadernos de receitas, agendas e livros personalizados. O próprio artesão admite que começou a desenvolver a técnica (com base em conhecimentos adquiridos ainda na juventude) com o intuito de publicar obras literárias próprias e por encomenda. ''Se você vai a uma gráfica, precisa fazer mil exemplares, e de repente só precisa de uns 50. O resto fica encaixotado por anos. Se optar pela impressão por demanda, quanto menor o número, mais caro o exemplar. Encadernando artesanalmente, posso produzir de acordo com a verba de que disponho'', comparou.
Outra motivação de Kramer foi a possibilidade de transformar algo tão tradicional em uma profissão. ''Não é pelo saudosismo, mesmo porque eu inovo no que é possível. Mas é uma técnica que não pode ser esquecida ou superada. A gráfica encaderna, mas não de forma personalizada. E há vários tipos de encadernação, como a inglesa, alemã, italiana, japonesa. É um nicho que praticamente ninguém está explorando'', apontou o artesão.
''Dá para fazer em casa, dar de presente ou de repente até vender. Vou fazer sim'', comentou a auxiliar de serviços gerais Claudina André da Silva Mariano, de olho em novas possibilidades de geração de renda. Já a bibliotecária Cíntia Xavier viu nas técnicas uma solução para consertar vários livros danificados. ''Na faculdade, só temos a disciplina restauração, e bem básica. Agora, vou poder fazer muitos livros voltarem para as estantes'', comemorou.
Também foi em busca da parte prática que não teve na faculdade que o estudante de design gráfico Anderson Barbosa Martins Ribeiro se interessou pela aula de encadernação manual. ''É isso que é legal de sair do mundo fechado da faculdade e aprender fora. Deu para ter uma noção do processo em si, e ver que é a união de pequenos detalhes que culminam em um bom trabalho'', analisou.
Serviço
Ernesto Kramer vai ministrar a partir do dia 22 abril, sempre às 15h, uma oficina prática de Encadernação Artesanal na Vila Cultural Alma Brasil, ao custo de R$ 50. Os interessados podem ligar para (43) 3326-2672. O contato com o artesão pode ser feito pelo e-mail [email protected].


