Para nós formados e formatados na cultura burguesa, iluminista, individualista, tão acostumados em entender a arte como produção de obras, objetos para serem apreciados esteticamente, como mercadorias de compra e venda de acordo com a autoria, fama, respeito ao nome do artista e à instituição que ele representa, fica difícil compreender um outro ponto de vista senão aquele já institucionalizado.
Esse outro ponto de vista trata da arte não como produtora de obras, mas como processo em permanente continuidade, aberto à vida. Isto quer dizer que há um redirecionamento no pensamento não só em relação à arte, mas também a todo o sistema de circulação de mercadorias e lucro que é colocado sob questionamento.
Nos anos 60, artistas como, por exemplo, o italiano Piero Manzoni, já realizavam trabalhos que embaralhavam a lógica do capital como algo determinante para a producão de arte, jogando com situações paradoxais como aquela da ‘‘merda de artista’’, em que colocava suas próprias fezes embaladas em uma latinha de metal e que depois eram vendidas como produto artístico.
Os sintomas de que a cultura passaria a ser o novo lugar destinado ao exercício do sagrado foi se tornando cada vez mais evidente a partir do ponto em que as pessoas trocaram a igreja pelo museu como lugar de elevação espiritual. Ao mesmo tempo em que se elevou a arte a um papel principal em relação a fé - consequência de uma cultura pragmática -, diminuiu o peso da cultura em relação às demais atividades da vida. Agora, há sempre uma empresa de serviços delivery, responsável - não só pela merda do artista - pela limpeza de esgotos domésticos, a preços competitivos.
Se a arte não ficou imune aos artifícios do poder do dinheiro sobre a cultura, ao menos os artistas têm buscado levar essas discussões para além do campo específico dos museus. Para isto acontecer, alguns deles apostam na estratégia da relação arte-vida, tendo como orientação não mais o produto artístico acabado enquanto obra, mas enquanto processo de trabalho, não interessando mais a forma final do trabalho artístico, mas seu percurso enquanto atitude.
Isso aparentemente pode ser muito difícil de ser assimilado - visto que a maioria entre nós só consegue elaborar o pensamento artístico a partir de uma visibilidade dada, no máximo conseguindo distinguir uma obra por características formais (abstrata, geométrica ou figurativa) -, mas em última instância tem feito parte do procedimento de vários artistas conectados com as discussões e os rumos de uma nova linguagem em arte, hoje.
Se, por um lado, as relações com as instituições se tornam mais complexas, já que todas as categorias instituídas tendem a se diluir - tais como curadoria, autoria das obras, duração do evento e abrangência física do espaço ocupado -, por outro lado é possível problematizar muito mais as questões que abrangem as inquietações do homem contemporâneo - tais como o lugar ocupado pela cultura em nossa sociedade e sua consequente abrangência.
Incluir aí, por exemplo, não só a merda do artista, mas a responsabilidade de cada um pelo destino das fezes que fazemos é uma delas. Hoje não mais para se transformar em objeto artístico, obviamente, mas como parte de um processo em que a própria vida reclama um lugar sagrado em meio ao chamado processo cultural.
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