São Paulo, 15 (AE) - A obra do escultor Frans Krajcberg, que recebeu o Prêmio Multicultural Estadão no ano passado, foi sempre marcada pela presença do fogo. Fruto da destruição ecológica, ela chegou aos principais museus do mundo, participou de bienais internacionais e, agora, está novamente ameaçada de destruição. Duas esculturas de Krajcberg, ""A Flor do Mangue" e "Destruição", emprestadas para uma exposição cultural e ecológica realizada há um ano pela Fundação Cartier de Paris, foram, segundo o artista, sequestradas pela empresa Alternativa Transporte no Porto de Santos. Elas deveriam ter voltado para seu ateliê em Nova Viçosa, na Bahia, mas a transportadora, que, de acordo com Krajcberg, já recebeu da Fundação Cartier o dinheiro para o transporte e o valor das taxas de importação e exportação, está exigindo R$ 6 mil para liberar os trabalhos.
O contêiner que veio de Paris com as duas esculturas, ainda segundo o artista, chegou ao Porto de Santos em 22 de outubro e foi liberado pela Receita Federal quatro dias depois. Os documentos necessários para a liberação, garante Krajcberg, já estavam de posse da transportadora nessa data, mas, em novembro, ela pediu uma nova procuração ao artista. Num panfleto em que acusa a transportadora de chantagem, o artista diz que achou estranho o pedido de nova procuração e desconfiou que a transportadora estava de olho no dinheiro do seguro das obras (US$ 500 mil). Segundo Krajcberg, a empresa só não pegou o dinheiro porque o seguro já tinha vencido.
Começou, então, de acordo com o artista, um processo de extorsão. Argumentando que, tendo domicílio no Rio de Janeiro, o escultor não poderia ter mandando um documento registrado em Nova Viçosa, a transportadora teria exigido dele R$ 63 mil para liberar as peças. "Sabendo que eu não pagaria nem um centavo, tiraram meu registro no computador, para que fosse caracterizado o abandono das obras", suspeita. Com a intervenção do Ministério da Cultura, esse registro teria voltado a aparecer, o valor exigido caiu para R$ 34 mil e, hoje, a transportadora quer R$ 6 mil para devolver as esculturas. Krajcberg permanece irredutível. Não vai pagar um único centavo, mesmo tendo de cancelar sua participação numa outra mostra programada para setembro, em Paris.
A transportadora teria ameaçado destruir as esculturas, segundo Krajcberg, sabendo que uma lei da Unesco define como crime a destruição de uma obra de arte. "Desde 1975, quando o governo militar prendeu na alfândega obras que emprestei para uma exposição em Paris, não via uma violência como essa", observa o artista, que já pensa em mudar-se do Brasil. "Estão destruindo a Amazônia e todas as florestas do País, não há política cultural nenhuma e mesmo os artistas desconhecem a solidariedade num momento como esse, em que a denúncia contra o arbítrio de uma empresa que quer destruir obras de arte passa impune", justifica.
Krajcberg diz que não há motivo para comemorar os 500 anos do Descobrimento, "porque a cultura do País ainda é a da exploração". Tudo aqui, diz, é fruto do imediatismo e da corrupção. "Aprendi muito neste país, principalmente que a morte tem uma forma e que não preciso me preocupar com o aspecto formal da obra de arte porque mais importante é a denúncia contra os crimes ecológicos praticados todos os dias aqui", diz
revoltado com a indiferença oficial. "É bom lembrar que o homem não pode viver sem a natureza, mas que ela passa muito bem sem ele", alerta.
Quem diz isso é um homem sofrido, de 78 anos, cujos avós morreram num incêndio, que perdeu os pais num campo de concentração nazista, que teve sua casa incendiada em Nova Viçosa e seguiu procurando restos de árvores queimadas para construir obras de arte. Se o Brasil trata muito mal esse artista, os convites para expor lá fora não param. Por vezes, alguma instituição brasileira se lembra desse esforço. É o caso da Petrobrás, que deve lançar no fim do ano um livro em homenagem ao artista, escrito pelo crítico Frederico de Morais.
Outros quatro livros já foram escritos sobre a obra do escultor, um deles pelo respeitado crítico francês Pierre Restany, um dos articuladores do grupo que forjou o novo realismo francês nos anos 60. Há meio século no País, naturalizado brasileiro, Krajcberg lembra que, no passado, os artistas eram mais unidos e jamais admitiram a ameaça de destruição de uma obra de arte como a que agora enfrenta da empresa transportadora. "Pintei azulejos com Volpi, Segall comprou meus primeiros desenhos e os amigos artistas eram muito solidários", lembra, comparando com mágoa a indiferença demonstrada pela classe sobre o episódio das obras retidas no Porto de Santos. "Qual é a minha defesa?", pergunta, desolado.
Quando a notícia sobre a possível chantagem sofrida por ele foi divulgada, a prefeitura do Rio de Janeiro ofereceu-se para pagar o valor exigido pela transportadora, mas Krajcberg não aceitou. "Por que tenho de pagar por chantagem?", pergunta. "A Fundação Cartier já pagou todas as despesas de transporte e as taxas, não estamos devendo nada a essa empresa"
garante. O episódio fez com que Krajcberg cancelasse sua participação em exposições internacionais. "Quem sai perdendo com isso é o Brasil, que não sabe o que significa participação cultural e vive importando artistas de terceira categoria sem conseguir levar sua arte para os Estados Unidos e a Europa", conclui.

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