São Paulo, 13 (AE) - Arte sobre papel, até recentemente, era um veneno no mercado brasileiro. Essa distorção, a julgar pelo crescente interesse de colecionadores e cotações nos leilões internacionais, mudou de forma radical. A artista de origem suíça Mira Schendel, que fixou residência no Brasil nos anos 50 e morreu em 1988, é o exemplo maior dessa valorização astronômica, como provou um leilão da Christies realizado no ano passado, em Nova York. Mira lidera com cinco desenhos a lista de 14 artistas selecionados pelos proprietários da Thomas Cohn, o marchand que empresta seu nome à galeria e seu sócio Oscar Cruz. Eles inauguram sábado a mostra "Técnica Mista sobre Papel", reunindo nomes como Hélio Oiticica, Lígia Clark e Amilcar de Castro.
A exposição tem 20 obras assinadas ainda por Antonio Dias, Artur Barrio, Cildo Meireles, Ivens Machado, Lygia Pape, Maria Martins, Roberto Magalhães, Rubens Gerchman, Tunga e Waltércio Caldas. O exemplar mais antigo é um desenho de Maria Martins de 1945, que sintetiza as formas escultóricas dessa artista filiada à corrente surrealista. O mais valioso é um desenho geométrico da série "Metaesquema", feita no fim dos anos 50 por Hélio Oiticica. Custa R$ 30 mil, mais que o dobro de um bom desenho de Mira Schendel dos anos 60, à venda por R$ 14 mil, equivalente à cotação alcançada no leilão da Christies. Entre as raridades estão dois desenhos eróticos de Tunga dos anos 70, disponíveis por R$ 10 mil cada um. Para colecionadores - O marchand Thomas Cohn tem o endereço certo dos compradores. "É uma mostra destinada a colecionadores que querem cobrir buracos em suas coleções", diz, certo de que não se trata de uma exposição para neófitos. De fato, o público verá na mostra desenhos que Waltércio Caldas e Tunga nunca mostraram em São Paulo, para citar apenas dois grandes artistas contemporâneos presentes com obras atípicas. Cohn comprou nos anos 70 uma série de desenhos a lápis de Tunga que mostram personagens insólitos em situações não menos bizarras. Dois deles adotam como ambiente uma piscina. Nela, um homem aparece enforcado num trampolim, uma mulher é violentada por um guarda-chuva e um onanista pratica seu ato cotidiano à luz do dia.
Cohn comprou esses desenhos do próprio artista. Outros trabalhos da exposição foram adquiridos diretamente em ateliês e poucos de intermediários. É um detalhe importante na hora da revenda. Cohn diz que é impossível garantir a recompra ou a liquidez num país em eterna crise financeira, mas lembra que um colecionador de Belo Horizonte comprou obras em papel quando ninguém se interessava e não se arrependeu. "Nos leilões de arte mais recentes, as peças em destaque são desenhos", observa seu sócio Oscar Cruz, citando vendas de obras em papel de Di Cavalcanti por mais de R$ 100 mil. Fim do preconceito - "Ainda não se estabeceu no Brasil uma relação entre colecionador e marchand, como nos EUA, em que o primeiro é orientado para comprar obras de valorização garantida", conclui Cruz, citando o marchand Leo Castelli, que, financiado por colecionadores, lançou os maiores nomes da arte pop (Andy Warhol, Lichtenstein). "Felizmente, o preconceito contra o papel está acabando no Brasil e é preciso destacar a função de artistas contemporâneos mortos, como Mira Schendel e Leonilson, que sempre fizeram desenhos, mesmo quando o mercado não absorvia essa produção", observa Cohn. Ele revela que a procura por desenhos de Leonilson é até maior do que por suas telas. "Há casos de artistas mais conhecidos por instalações e objetos, como Cildo Meireles e Waltércio Caldas, que nunca têm oportunidade de mostrar sua produção de desenhos, que é enorme"
diz Oscar Cruz, lembrando que desenhos dos dois artistas cariocas foram vendidos por sua galeria, no ano passado, para o Museu de Arte Moderna de São Paulo. "Os museus, que só viviam de doações, estão voltando a comprar e é revelador que essas aquisições sejam de desenhos". As vendas para instituições brasileiras ainda são inexpressivas, mas, segundo revelou para Cohn o marchand americano Roland Augustine, 45% das vendas de sua galeria são para museus. Serviço - "Técnica Mista Sobre Papel". De segunda a sábado, das 11 às 14 horas.Galeria Thomas Cohn. Avenida Europa, 641, tel. 883-3355. Até 26/2. Abertura sábado, às 11 horas

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