São Paulo, 18 (AE) - Dias Gomes entrou na TV há 30 anos, mas como mulher. Em 9 de julho de 1969, foi com o nome de Stela Calderón que o autor assinou a novela "A Ponte dos Suspiros", da Globo. A história era puro "Conde de Monte Cristo" à Gloria Magadan: na Veneza de 1500, o herói interpretado por Carlos Alberto é preso no dia do casamento por causa da intriga de um rival.
Gomes, no entanto, fez com a trama o que viraria sua marca no vídeo: transformar folhetins comuns na mais alfinetada reflexão política sobre o País. Em dado momento, do nada, os personagens de "A Ponte dos Suspiros" param de suspirar de amor e danam-se a discutir os males da censura e da tortura na Itália medieval.
Ele ajudou a vencer o preconceito intelectual contra as telenovelas num momento em que a TV começava a virar indústria de peso. Já consagrado no teatro, aplaudido no cinema e com 20 anos de estrada no rádio, Gomes injetou vitalidade na dramaturgia da Globo.
De muitos modos, subverteu a tradição folhetinesca da TV
esvaziando seus clichês habituais, nos 16 textos que criou, entre novelas, minisséries e séries.
Primeiro, inovou nos temas que escolhia. Já em "Verão Vermelho", seu primeiro real sucesso, de 1970, abordava questões tabus e contemporâneas, como o desquite e a reforma agrária. Em "O Espigão" (1974), denunciou a desumanização da cidade, com a família Camará resistindo como podia para não ver sua casa desapropriada. Em "Bandeira 2" (1971) pôs um bicheiro como protagonista e em "O Bem Amado" (1973), transposição de um texto teatral de sua autoria, criou a saga satírica de um prefeito corrupto.
"O Bem Amado", primeiro programa colorido da TV brasileira, estabeleceu a referência das tramas com a cidadezinha de interior, pitoresca e corroída, microcosmo do País. O sucesso foi tão grande que a história seria transformada em série em 1980, ficando cinco anos no ar.
O autor ousou também nos formatos. Em "O Fim do Mundo" (1996), experimentou novela com um mês de duração. Em "Saramandaia" (1976), levou para o vídeo o realismo fantástico
que floresceu na literatura latino-americana. Nela, a cidade de Bole-Bole é povoada por tipos únicos, como o herói que cria asas (Juca de Oliveira), d. Redonda (Wilza Carla), que explode de tanto comer, e a matuta Marcina (Sônia Braga, quem mais?), que literalmente pega fogo quando fica excitada.
Roque Santeiro, que havia sido censurada em 1975, uniu em 1985 as duas grandes forças que definiram o estilo de Dias Gomes na TV: a sátira política de "O Bem Amado" e a liberdade quase surreal de "Saramandaia". Baseada em sua peça "O Berço do Herói", escrita em parceria com Aguinaldo Silva (da atual "Suave Veneno"), desnudou a manipulação religiosa que o inquietou no teatro ("O Santo Inquérito") e no início da carreira na TV ("Assim na Terra Como no Céu", de 1970, com um padre que abandona a batina para casar-se).
Na segunda metade dos anos 80, a produção televisiva de Dias Gomes começa a ser marcada pela irregularidade. Depois do fiasco autoral de "Mandala" (1987) e público de "Araponga" (1990), assinou em 95 a regravação de "Irmãos Coragem", escrita por sua mulher Janete Clair em 70.
Começou a optar por textos de curta duração, com as minisséries "Decadência" (1995), que refletia o Brasil pós-Collor e Edir Macedo, e "Dona Flor e Seus Dois Maridos", do ano passado, retomando o universo de Jorge Amado. Este ano, o diretor de Criação da Globo, Daniel Filho, escalou-o para coordenar um projeto de minisséries para as comemorações dos 500 anos do País. Escreveria uma delas, "Um Tiro no Coração", com 10 capítulos dramatizando a morte de Getúlio Vargas. Foi um dos momentos políticos mais delicados do País. Ninguém seria mais indicado para a tarefa.

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