Obra reúne dos autos populares aos cantos indígenas
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terça-feira, 15 de junho de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 16 (AE) - Em processo de tomada de consciência política, o crítico literário Pereira, do romance "Afirma Pereira", de Antonio Tabucchi, diz a um interlocutor algo mais ou menos assim: "Mas não existe uma raça portuguesa; somos celtas, árabes, judeus..." No Brasil do descobrimento, tornamo-nos também franceses, holandeses, ingleses, índios, negros (não nessa ordem, mas todos os elementos compõem a etnia, se é possível dar-nos, e deve ser, esse nome).
O formidável trabalho de Anna Maria Kieffer - "Teatro do Descobrimento" - que tem um disco-livro quer será lançado amanhã (17) em São Paulo - é uma tentativa única de recuperar a língua cantada dos primeiros dois séculos brasileiros, sobre a qual tão pouco se sabe. Dividido em três partes (A Viagem, Terra Brasilis e A Flauta de Matuiú) vai aos autos populares luso-brasileiros, de origem medieval (é notável a súplica da jovem galega ao namorado que viajará: "Manoel, não te embarques queu te quero sustentá... com ó fundo do meu dedá... não te embarques que tu vais sofrê no má... e eu ficarei sofrendo saudades do teu olhá") ao "mundo introspectivo e indagador" que vem da releitura dos cantos indígenas e ao mítico curupira, índio de pele negra, cabelos ruivos, pés virados para trás, guardião da floresta.
Ele conduz a narrativa dramática do disco ao segundo século brasileiro: "Recria, com sua flauta imaginária, o toque dos corneteiros flamengos de Maurício de Nassau no porto de Olinda", escreve a pesquisadora, que divide os créditos do disco com o grupo Anima. É um trabalho sério, incriticável, indispensável, luz sobre nossos cantos e gestos, identidade.


