Obra-prima da simplicidade, "Filhos do Paraíso" chega amanhã aos cinemas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de março de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 11 (AE) - "Filhos do Paraíso", do iraniano Majid Majidi, pode não ser o favorito para ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro. De fato, terá de enfrentar os pesos-pesados "Central do Brasil" e "A Vida É Bela". Mas Majidi realizou uma jóia rara, uma pequena obra-prima da simplicidade, como "Balão Branco", do seu compatriota Jafar Panahi.
Os filmes parecem-se um pouco. Não apenas pelo despojamento da intriga, mas pelo privilégio concedido à visão da infância sobre a sociedade. A trama de "Filhos do Paraíso" é mínima. Quando está indo para a escola, o garoto Ali perde o sapato recém- consertado de sua irmã, Zahra. São filhos de pais pobres e têm de virar-se como podem. A solução é partilhar um par de tênis surrados na ida à escola. Zahra usa os sapatos de manhã e entrega-os para o irmão, à tarde. Influências - Já se falou muito sobre a influência do neo-realismo italiano sobre o novo cinema do Irã. Quando esteve em São Paulo, o pai espiritual dos realizadores iranianos, Abbas Kiarostami, disse que tinha conhecido o trabalho de Roberto Rosselini quando já estava em plena maturidade. Ou seja, quando já havia dirigido vários filmes e apurado seu estilo.
Seja como for, há um diálogo evidente entre o Irã atual e a Itália do pós-guerra, ao menos em um ponto: na atenção concedida aos assim chamados "pequenos temas". São cinematografias que colocam em primeiro plano as pessoas comuns, suas alegrias e aflições. Cesare Zavattini, que assina o roteiro do clássico "Ladrões de Bicicletas", de Vittorio De Sica, colocava a coisa nesses termos: "Não há em toda Itália fato mais importante do que este: um homem teve sua bicicleta furtada e não pode trabalhar por causa disso".
Pois bem, para Majidi não há nada mais fundamental no Irã do que esse casal de irmãos pobres que precisa partilhar um par de sapatos para ir à escola. Está tudo aí. Um tema desses passa raspando pela pieguice. Felizmente isso não acontece. O que salva o filme é o sutil engenho de roteiro, que permite ligar o fato pequeno a sua circunstância. Quer dizer, à sociedade iraniana, vista como um todo.
As crianças moram num subúrbio e vivem naquela pobreza chamada digna. O pai arranja-se com pequenos expedientes, a mãe está doente. Quando pai e filho tentam ganhar algum dinheiro, visitam a parte rica da cidade, oferecendo serviços de jardinagem. As primeiras cenas mostram um Irã quase pré-industrial, em que as pessoas tentam reaproveitar os objetos da melhor maneira possível e nada é jogado fora, porque tudo tem utilidade para quem é pobre. Mundo da bricolage, do Irã profundo, religioso, conservador.
Quando pai e filho passam pelo centro de Teerã em busca dos bairros ricos outra paisagem se impõe. Agora é a vez dos carros modernos, dos edifícios de vidro fumê, do telefone celular. A apresentação desses contrastes é feita com infinita sutileza, sem nenhuma imposição didática.
O cinema é muitas coisas e, entre elas, pode funcionar como janela para um mundo desconhecido. É bem possível que "Filhos do Paraíso" ensine mais sobre o Irã contemporâneo do que uma boa série de reportagens. Isso porque ao dado factual, junta uma sensibilidade cuja apreensão é privativa do espírito artístico.


