Obra madura e forte, assim é "Mama Mundi"
Obra madura e forte, assim é "Mama Mundi"17/Mar, 16:12 São Paulo, 17 (AE) - A geração de cantores-compositores que se fez à margem da indústria fonográfica e acabou cooptada por ela, sem abrir mão de sua integridade - Lenine, Zeca Baleiro - tem em Chico César seu exemplo mais notório e seu ícone. A carreira construiu-se nos festivais do interior. O primeiro disco, "Aos Vivos", voz e violão, foi gravado ao vivo e lançado por uma gravadora pequena, a Velas (que nos deu também, entre outros, Guinga e Rosa Passos, dois exemplos adicionais da relação de alternativos). "Aos Vivos" tornou-se um fenômeno. Estrelas como Maria Bethânia e Elba Ramalho e até Daniela Mercury, comprometidíssima com os esquemas de grande vendagem das multinacionais do disco, viram na obra o valor de que quiseram logo lançar mão. Chico César pôde fazer, depois disso, discos mais elaborados. Indo ao mercado sem preconceito contra ele, mas também sem deslumbramento, sabendo de suas regras e perigos. Portanto, usando-o, não fazendo o seu jogo. "Mama Mundi" é fruto dessa atitude, obra madura de um compositor relativamente jovem e novo na praça (embora com mais de 15 de carreira). Chico César cresceu profissionalmente correndo riscos. Seu trabalho reitera a declaração de independência. "Mama Mundi" é um disco fortíssimo, profundo, com subtextos (literários e musicais) a explorar por muito tempo. O impacto dele é comparável ao que provocaram os discos de ruptura, no fim dos anos 60, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. É quase um disco de tese (quase porque sua beleza é mais evidente do que seu fundamento ideológico): Chico César está apresentando uma solução estética possível para a questão da pós-modernidade. Trabalhando com opostos, conciliando contradições, fez um disco fulgurante, esclarecedor: talvez não seja definitivo, pois ele tem mais inquietações com as quais nos provocá. Que seja em breve. (M.D.)





