Rubem Fonseca sempre gostou de mistérios. Escritor que inaugurou a moderna literatura urbana no Brasil ao revelar as entranhas da sociedade e antecipar a escalada de violência no País, ele não se deixa fotografar, tampouco concede entrevistas, embora circule com desenvoltura pelas ruas do Leblon, no Rio, protegido por um boné, passeando na praia, comprando jornais, frequentando cinemas.
''O desconhecido cai bem em Rubem Fonseca'', graceja Paulo Roberto Pires, diretor editorial do Grupo Ediouro, do qual faz parte a Agir, editora responsável pela publicação da obra do autor. O romance inédito ''O Seminarista'' (184 páginas, R$ 36,90) e a reedição de dois clássicos, ''Os Prisioneiros'' (176 páginas, R$ 36,90) e ''Lúcia McCartney'' (240 páginas, R$ 39,90) chegam esta semana às livrarias. Em janeiro será a vez de ''Agosto'' e ''A Coleira do Cão''. A editora resolveu transformar ''O Seminarista'' no primeiro livro a ser lançado também em formato digital no Brasil, para e-book, iPhone e iPod. A partir desta semana, o texto estará disponível para o Kindle e na Applestore e a editora prepara um site exclusivo para a promoção da obra. Aos 84 anos, Rubem Fonseca é um aficionado por essas novidades tecnológicas.
O foco de ''O Seminarista'' é, evidentemente, policial. José é um ex-seminarista que se transforma em matador de aluguel conhecido por Especialista (que também aparece nos contos de ''Ela e Outras Mulheres''). O leitor, aliás, só descobre que ele abandonou a batina depois de alguns capítulos, mas desconfia de algo por conta de profusão de citações em latim.
Ele recebe as ''encomendas'' de um intermediário conhecido por Despachante até o momento em que decide novamente abandonar o ofício - apaixonado por Kirsten, alemã que traduz livros brasileiros, José se aposenta, desfazendo-se de suas armas. O idílio, no entanto, é curto, pois logo ele começa a receber dicas de que seria alvo de um antigo cliente. Pior: Despachante, até então um amigo confiável, encabeça a lista dos prováveis interessados em seu desaparecimento.
''O Seminarista'' é seu primeiro romance e surge quatro anos depois de ''Mandrake, a Bíblia e a Bengala''. Texto fluente, provoca uma vaga lembrança dos clássicos americanos (especialmente de Raymond Chandler), mas se impõe como brasileiro graças à sua picardia tipicamente carioca. Fonseca continua hábil em conduzir a história, fornecendo aos poucos os detalhes para o leitor, prendendo-o à narrativa. O ponto negativo, no entanto, é a quantidade de digressões que pouco ou nada acrescentam, um desvio de percurso que poderia ser mais bem aproveitado. Como quando disseca a forma das diferentes armas ou o sabor dos pratos da culinária alemã - Fonseca parece se divertir com a busca do leitor por algum sentido naquele desvio de rota.
O livro chega com uma tiragem inicial de 20 mil exemplares, e parte deles virá acompanhada de um brinde, candidato a já se tornar objeto de culto: uma edição limitada do conto ''A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro'', que vem acompanhado de um ensaio fotográfico de Zeca Fonseca, filho do escritor.

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