Obra imune a modismos de Maria Isaura Pereira merece indicação ao Prêmio Multicultural
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segunda-feira, 22 de março de 1999
Por Norma Couri, especial para a AE 
São Paulo, 23 (AE) - No país do espalhafato e do imediatismo existe alguém que foge da imprensa, das luzes e da glória do daqui a pouco. É mulher, tem 80 anos e viveu a vida como uma desconhecida para a maioria dos brasileiros. Agora, forçada pela indicação de prêmios como o Multicultural Estadão, ela teve de aparecer em cena até para recusar o rebuliço em torno de seu nome. Mas disso Maria Isaura Pereira de Queiroz não escapa. Os amigos não deixam, os desafetos respeitam e ela tem uma bela história para ser contada.
Com 14 livros publicados em diversas línguas e um prêmio Jabuti por "O Messianismo no Brasil e no Mundo", Maria Isaura é pouco lida fora do circuito universitário - e é pena. Professora emérita de ciências sociais da Universidade de São Paulo (USP), ex-aluna de Roger Bastide, sobre quem publicou um livro pela ática em 83, ativíssima e pretendendo chegar aos 90 como a avó ou até 105 como a tia, ela é um mito. Até para quem discordou dela, como o antropólogo Roberto da Matta, autor como Maria Isaura de um livro sobre o carnaval: ele inclui o livro sobre messianismo entre as dez obras obrigatórias para se entender o Brasil.
Foi esse o livro que guiou a jovem aluna da USP Janice Theodoro da Silva em 1969 a estudar os fanáticos da Serra João do Vale, mas foi desaconselhada a prosseguir nesse terrreno, perigoso nos anos da ditadura. "Imagine, hoje aos 50 anos, professora titular do departamento de História Social da USP, não pude seguir o caminho que ela, sem engajamento, sem alarde, cumprindo honestamente o seu papel, trilhou corajosa naqueles anos difíceis; hoje, todo o mundo está de acordo sobre Canudos, mas naquele época era só ela".
Formação erudita européia, de uma geração que não se faz mais, ela teve uma trajetória que Janice considera impecável. Entre os alunos, é um marco. Das mãos de Fernando Henrique Cardoso, marido de uma ex-aluna, Maria Isaura recebeu no ano passado o prêmio Almirante álvaro Alberto do Ministério de Ciência e Tecnologia. "Duas barreiras foram vencidas, uma mulher foi premiada e sua obra equiparou as ciências sociais às exatas", disse outra ex-discípula, a socióloga Eva Blay. Hoje professora titular de sociologia da USP, Eva recorda-se de como nos anos da ditadura Maria Isaura localizou uma secretária que havia sido presa e foi à cadeia levar-lhe um travesseirinho.
Por isso, quando Maria Isaura foi eleita cientista do ano, Eva Blay publicou no jornal interno da USP um perfil da mestra. Aqui, alguns trechos: "A obra de Maria Isaura ficou imune aos modismos, com coerência, busca a estrutura e os processos sociais, usa métodos quantitativos e sobretudo os qualitativos e traz a perspectiva marxista, as várias correntes da sociologia francesa ou a weberiana, subordinando-se às exigências do objeto pesquisado".
Ela sempre ensinou que, se necessário, se modificasse a teoria ou se aperfeiçoassem os métodos de investigação, mas o paradigmático era o respeito aos fatos sociais observados. Pode-se imaginar o que esta posição teórica representou nos anos 60, quando quem não fosse estritamente marxista era desprezado pela academia, ou nos anos 70, quando quem não adotasse a análise fatorial não era considerado um respeitável sociólogo!
Seguindo a mesma trajetória de seu mestre Roger Bastide, Maria Isaura tem construído uma obra que resiste ao tempo e frutifica por intermédio de seus alunos e alunas da Universidade de São Paulo, sua casa, ou das Universidades de Paris, de Laval, no Canadá, Université des Mutants, no Senegal, Université de Louvain-La-Neuve, na Bélgica. Deve-se acrescentar também estudantes de sociologia do Instituto de Educação de Matão, no qual Maria Isaura começou sua carreira após prestar concurso e que ela nunca deixou de apontar em seu currículo.
Entender a realidade brasileira é o tema de sua obra. Não é por acaso que começa sua carreira buscando entender as raízes dos processos que a cada etapa histórica marcam a ação popular brasileira: raízes religiosas e messiânicas e o mandonismo na política. Este foi o tema da tese que defendeu na Sorbonne em 1956 perante uma banca composta por Roger Bastide, Claude Lévi-Strauss e Gabriel Le Bras. Existe tema mais atual? Ao demonstrar que é por intermédio das crenças messiânicas e da religiosidade que o povo vai enfrentar o poder ou ser subordinado por ele, desvenda uma das chaves para a compreensão da sociedade brasileira e latino-americana e outras mais.
Seus livros sobre os cangaceiros - bandidos de honra - ou o catolicismo, são traduzidos para o francês, inglês, alemão, italiano, espanhol e árabe. Os estudos rurais marcam a sua obra. Grupos de pesquisa orientados por ela no começo dos anos 60 incorporaram alunos, professores, psicanalistas e antropólogos. Assim ficou registrado o sertão de Itapecerica, Juquitiba, Paraibuna. Estudaram populações ribeirinhas do Vale do Ribeira, sitiantes, escolas rurais, bananicultores de Itanhaém e Peruíbe, relações de trabalho e a produtividade dos rizicultores no Vale do Paraíba. Avaliaram os efeitos dos polders, analisaram a mentalidade dos empresários agrícolas, os japoneses e os nisseis na produção do chá, o cacau e a exploração do petróleo na Bahia. Foi ela que inspirou o Centro de Estudos Rurais e Urbanos (Ceru) da USP.
Há uma grande produção de Maria Isaura e seus discípulos nas áreas da história de vida, incluindo o carnaval. Seu fórum privilegiado é a SBPC em que, além dos trabalhos científicos, luta por uma política científica para o País.
Absolutamente discreta, aos poucos vamos descobrindo sua atuação na resistência nos anos da ditadura no Brasil quando vários orientandos, amigos ou amigos de seus amigos foram presos e perseguidos. Ela estava sempre disponível, dia e noite, para enfrentar a repressão.
Suas primeiras publicações apareceram em "O Tico-Tico"
quando ela tinha 8 anos. Passou para os contos juvenis e para os escritos acadêmicos. Suas cartas são deliciosas formas de diálogo acadêmico. Mas não se iludam. Por mais amiga que seja não deixará de fazer uma dura crítica sempre que necessário. É uma orientadora magistral.
Maria Isaura nunca buscou nem permitiu ser alvo dos meios de comunicação. Nunca deu uma entrevista. Não aceita ocupar espaço que não seja o intelectual. É avessa à propaganda, mas não censura e até elogia os que a usam. Só a vi escrever para jornais por duas vezes. Uma para defender sua tia, que já morreu, a deputada Constituinte Carlota Pereira de Queiroz, vítima de um artigo injusto. A segunda vez, quando escreveu exigindo ser incluída entre colegas que, injustamente, eram arrolados como improdutivos. Solidária.


