Obra endiabrado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de abril de 2002
Francesca Angiolillo Agência Folha 
São Paulo Se o diabo já não mete medo como antigamente, continua despertando a curiosidade de muita gente. Pelo menos das 3.000 pessoas que esgotaram, em 40 dias, a primeira tiragem da edição brasileira de Uma História do Diabo.
Para refazer o traçado do demônio, o livro do historiador francês Robert Muchembled (que acaba de ter uma segunda leva posta na praça) adota o viés de sua atuação no imaginário, do século 11 ao 20 o que inclui sua presença em manifestações culturais, como a literatura e o cinema, mostrando como o Diabo passa de um ser quase domesticável a máxima ameaça no mundo cristão medieval e como hoje ele volta a perder força, ao ser associado ao prazer.
Muchembled, 58 é professor da Sorbonne/Paris-13, e autor de títulos como La SorciSre au Village (Gallimard-Julliard, 1979), no qual mirava as feiticeiras -essas amantes terrenas de satã e, como tal também contempladas em Uma História do Diabo.
Como a figura do demônio ganha força, na Idade Média?
É uma mudança que começa, sem dúvida, pela Igreja Católica do século 13, 14, a do Grande Cisma. É a igreja que, em uma crise terrível, insistiu enormemente no poder do Diabo. Nesse momento, há para os europeus um Deus muito bom, ainda que capaz de punir, e um Diabo quase tão poderoso quanto ele, um gigante, enorme, potente em comparação aos humanos, mas que obedece ao grande Deus do fim da Idade Média. Era uma forma de a Igreja Católica forçar a crença num Deus terrível, vingador (a espada divina, a peste, as catástofres medievais), um modo de dizer que Deus pune com justiça, mas ao mesmo tempo deixa o Diabo agir e cabe ao homem resistir à tentação.
A imagem do Diabo parece ter limites fluidos; deixa de ser a imensa estátua nas igrejas para ser a malignidade esparsa em outras expressões, como os odores do corpo, ou o olhar das feiticeiras.
Isso acontece entre os séculos 16 e 17, quando o conflito é ainda maior, com a oposição entre os católicos e os protestantes. Antes do século 13, o demônio podia ser um homenzinho, um personagem um pouco imbecil, facilmente enganável pelos humanos. Mais tarde, vem a idéia de que se o homem aceita o contato com ele como o Dr. Fausto, em 1580, na Alemanha , se ele faz um pacto com o Diabo, está perdido definitivamente.É uma novidade que durou dois séculos, a idéia de um demônio totalmente destruidor, de que qualquer aceitação dele -pelo sexo, pelo desejo, pelo pecado- era a danação certa.
O Diabo se enfraqueceu, numa sociedade como a atual, que preza o individualismo, em que o pacto de Fausto é quase desejável?
Certamente. A partir do fim da caça às bruxas, mais ou menos no fim do século 17, o pacto começa a ser considerado como um tipo de ilusão e, assim, não tão perigoso. O inglês Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoé [1719], escreveu uma história do Diabo que diz que ele não existe realmente, que é um princípio do mal, mas que não pode agir no mundo, não pode mais que se insinuar nos espíritos. Isso é uma novidade do século 18 e, na nossa época, o pacto se tornou até a idéia de uma pequena transgressão agradável. Hoje, brincar com o Diabo pode ser usar drogas. Alguns ainda acreditam como há três séculos, mas muitos vêem como um jogo com o demônio. O dr. Freud nos ensinou que o demônio somos nós mesmos, que é o que recalcamos por força da ordem de Deus, dos pais- e que não são necessariamente coisas ruins.
Serviço
Uma História do diabo (Une Histoire du Diable, 2000), de Robert Muchembled. Editora: Bom Texto (telefone (21) 2494-6658). 392 págs. R$ 35.


