Rio, 03 (AE) - A obra "Clavis Prophetarum", do padre Antônio Vieira, escrita a partir de 1669, nos últimos 30 anos de sua vida, e considerada por ele mesmo síntese de seu pensamento religioso, político e filosófico, terá edição completa na Itália
pela Universidade La Sapienza, de Roma, sob a coordenação do professor Silvano Peloso. A obra do principal pregador católico português do século 17 nunca teve edição integral por não se saber o paradeiro dos originais. Além disso, a história de como foram escritos e posteriormente copiados tem lances de romance de suspense, com intrigas palacianas entre Brasil, Portugal e Roma, lugares onde ele passou a maior parte de sua vida.
Peloso esteve no Rio esta semana participando do 1.º Seminário Internacional de Estudos Vieirianos, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e contou que há várias cópias manuscritas da "Clavis Prophetarum" (A Chave dos Profetas) em arquivos e bibliotecas europeus, mas em Roma estão guardadas as mais próximas do original. "Ele não finalizou a obra e as pessoas encarregadas de copiá-la censuraram trechos e modificaram-na tanto que hoje nem se sabe ao certo de quantos volumes se constitui", explicou Peloso. "Nossa intenção é editá-la em latim na íntegra, o mais próximo possível do que teria sido a intenção do autor, de acordo as referências que ele fez à obra em sua vasta correspondência".
O professor explica que sua equipe de historiadores e filólogos cuida apenas da edição em latim, que, depois de pronta
estará na Internet, à disposição de estudiosos e interessados na obra do padre Antônio Vieira. "É claro que achamos fundamental uma versão portuguesa, a partir dessa latina, mas essa tarefa cabe a portugueses e brasileiros, de quem esperamos a colaboração também neste trabalho inicial", pede ele. "Começamos a edição em Roma porque lá temos mais condições, até científicas, de leva-lá adiante".
Vieira nasceu em Portugal, em 1602, chegou à Bahia seis anos depois, tornou-se padre jesuíta e influiu ativamente na colonização do Brasil. Adulto, voltou a Portugal, onde pregava na corte, em Lisboa, e atuava politicamente, na mão contrária da Igreja Católica local, favorável à expulsão dos judeus e cristãos-novos (e da riqueza acumulada por eles) da Península Ibérica. Essa posição lhe custou uma condenação da Inquisição, que o levou a Roma. Lá passou três anos tentando rever a pena e pregando sempre. No fim da vida, voltou ao Brasil, onde viveu mais 18 anos, até morrer na Bahia, em 1697, dedicado-se aos seus escritos, já que estava proibido de manifestar publicamente.
Era um pregador de enorme sucesso, com um estilo que Fernando Pessoa considerou, já no século 20, modelo para a língua portuguesa. Seus sermões, que se contam às centenas, formam a parte de sua obra mais conhecida, pois foram copiados por fiéis e assistentes dele e revistos, em parte por ele mesmo, no fim da vida, por ordem de seu superior jesuíta. Mas o próprio autor os considerava obras menores. Para ele, seu livro definitivo era "Clavis Prophetarum", escrito sem a preocupação imediata da pregação religiosa e resumindo sua doutrina sobre como era o Reino de Deus, como chegar a ele e mantê-lo. Reino de Cristo - "Inicialmente, pensava-se que a "Clavis Prophetarum" tinha só dois livros, mas temos a carta de um auxiliar de Vieira, o reverendo Casnedi, falando do resumo de quatro tomos, sendo que o último estava quase pronto", conta Peloso. "Já outro jesuíta, encarregado de cuidar da obra, o padre Bonucci, relata que esse quarto volume, que descrevia o Reino de Cristo, que necessariamente aconteceria nesta terra, nem havia sido iniciado".
Segundo o professor, a controvérsia é agravada pelo fato de que, após morte de Vieira, em julho de 1697, todos os seus escritos foram enviados a Portugal numa arca e, de lá, parte foi para Roma. "O que se acreditava serem os originais de "Clavis Prophetarum" foram submetidos à censura da Inquisição Romana e essa é a versão de que dispomos", conta o professor. "Não se sabe o destino dos manuscritos do próprio Vieira, pois podem ter desaparecido no terremoto de Lisboa, no século passsado, mas nem isso é comprovado".
Três séculos depois de sua morte, padre Vieira continua a despertar interesse não só por seu estilo - brincava com metáforas e os vários sentidos de uma mesma palavra -, mas por suas idéias a respeito de política e da doutrina cristã. Algumas delas se mantêm atuais até hoje, como a exigência do respeito às culturas locais e às diferenças entre os povos. "A Clavis Prophetarum era onde Vieira queria deixar sua influência, a marca de sua passagem pelo mundo", explica Peloso, lembrando que ele teve de interromper o trabalho várias vezes, obrigado a dedicar-se à edição de seus sermões por ordem dos superiores jesuítas.
"Numa de suas muitas cartas, ele lamentava não poder dedicar-se à construção de um castelo altíssimo, a Clavis, para erguer míseras choupanas, que seriam os sermões". Como um homem na contramão de seu tempo - já que no século 17 a Igreja Católica tentava recuperar o poder perdido com o Renascimento, a Reforma e a própria descoberta da América -, há estudiosos que acreditam ter sido essa a forma encontrada pela Companhia de Jesus e pela Igreja de evitar a propagação das idéias de Vieira.
"Em 1694, ele foi proibido pelo superior da Companhia de Jesus de falar passiva ou ativamente, proibição que só foi suspensa no fim de 1697, três meses após a sua morte", lembra Peloso. "Mas seu pensamento é tão forte que hoje, três séculos depois, ainda estamos debruçados sobre sua vida e seus escritos para recuperar seu pensamento".

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