Vinte e quatro pequenos esqueletos encimam seis pequenos painéis com imagens da cultura judaica mescladas a outros elementos, como o boneco de um rabino com o rosto de Maggie Simpson ou uma torá com santos católicos dentro. A obra: ''Auschwitz'', o campo de concentração na Polônia onde foram mortos milhares de judeus, poloneses e ciganos.
''Auschwitz'' é um dos trabalhos do artista plástico Nelson Leirner na mostra que apresenta sua produção nos últimos dez anos, no Instituto Tomie Ohtake. A obra tem provocado polêmica na comunidade judaica da cidade. ''É um horror'', disseram em coro senhoras que estudam arte contemporânea e pediram para não serem identificadas.
As participantes do grupo têm como orientadora a professora da Faap, Magnólia Costa, e, há mais de um ano, se reúnem para estudar arte e filosofia. ''Elas leram a obra no registro do auto-ódio, como alguém que não aceita sua própria origem. Disseram que o pior anti-semitismo pode ser praticado pelos próprios judeus'', conta a professora.
''As coisas estão nos olhos e a sociedade não percebe certas coisas. A geração atual nem sabe o que é o nazismo, mas não é apologia, há uma lembrança ao folclore e que faz do povo judaico ter suas características. Estou sempre trabalhando com elementos da cultura, como a africana, a católica, o candomblé e, como sou judeu, não posso deixar a cultura judaica de fora. Obviamente sou antinazista. Se eu tivesse dado outro nome, talvez não chocaria'', disse Leirner, por telefone, do Rio de Janeiro, onde mora.
A convite da reportagem, o rabino Henry Sobel, presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista, visitou a exposição, ontem. Enquanto andava pelo instituto, até seguranças da mostra vinham pedir a opinião do religioso sobre ''Auschwitz''. Após ver toda a exposição, Sobel pediu 24 horas para emitir seu parecer. No dia, apenas comentava: ''Não dá para ficar indiferente''.
A opinião foi relatada hoje: ''Com todo o respeito que tenho por Nelson Leirner, como pessoa, como amigo e como artista, não creio que seja apropriado retratar jocosamente uma cena do Holocausto. Auschwitz foi um campo de concentração, onde mais de 1 milhão de judeus foram assassinados pelos nazistas. É uma recordação sombria para a comunidade judaica e para toda a humanidade. Não é um tema que se presta a interpretações criativas. Embora não veja nenhuma conotação anti-semita na obra, acho que é de mau gosto e fere a sensibilidade de muita gente''.
Leirner viu no parecer de Sobel uma forma de censura: ''Se o nome fosse trocado para ''Coma, Coma Minha Criança', todo mundo teria rido. Mas a idéia é provocar um pensamento através do jocoso. O fato de um nome associado ao trabalho ter provocado uma reação pelo menos fez o rabino Sobel, através de uma denúncia de um grupo, se manifestar. Mas é um tipo de censura, que eu como artista não admito'', afirmou o artista, hoje.
''O Nelson apresenta questões, não é um juízo. Ele mostra, com o uso de objetos, como nós apaziguamos situações que não estão tranquilas. Pensar Auschwitz é pensar num grande massacre e evitar falar é afastar o que não conseguimos deglutir'', diz Agnaldo Farias, curador da mostra.


Serviço:
- Nelson Leirner 1994 + 10. Mostra retrospectiva da produção dos últimos dez anos na carreira do artista. Curadoria: Agnaldo Farias. De terça a domingo, das 11 às 20 horas, no Instituto Tomie Ohtake (av. Faria Lima, 201, entrada pela r. Coropés, SP, tel. 0/xx/11/ 6844-1900). Aberta ao público até 11 de julho. Entrada franca.

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