Seu olhar acaricia os visitantes, sempre recebidos por um sorriso largo. E, se os movimentos já não são tão ágeis, a escritora Hilda Hilst, aos 71 anos, ainda apresenta aqueles traços que, na juventude, a apontavam como uma mulher com a beleza de Ingrid Bergman acrescida da sensualidade de Rita Hayworth, como carinhosamente a descrevia o amigo Massao Ohno.
E o brilho do sorriso de Hilda vai alcançar terras mais distantes a partir do mês que vem, quando a Editora Globo iniciar o projeto de relançamento de toda sua obra - são 31 títulos, entre prosa e poesia, que vão se acomodar em 18 volumes, sempre lançados aos pares. Como ainda pertencem a outra editora, as peças de teatro serão incorporadas ao acervo da Globo à medida que forem vencidos os contratos de cessão de direitos.
''É uma notícia que alegra, mas também me intriga: será que é verdade?'', questiona, desconfiada, a escritora, tantas vezes distanciada do público pela incompreensão dos homens. ''Eu me sinto uma tábua etrusca'', queixou-se, certa vez, em uma entrevista, referindo-se ao silêncio que rondava sua obra. Apesar de uma vasta produção, admirada pelos pares e aclamada no exterior, onde recebeu diversas traduções, Hilda Hilst cristalizou em torno de si a auréola de mito. ''Só espero que não mudem de idéia.''
A editora, porém, tranquiliza: a reedição começa com os livros ''A Obscena Senhora D.'' (prosa) e ''Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão'' (poesia). ''Meu critério foi o de ordenar separadamente a obra em prosa e em poesia, destacando inicialmente aqueles livros que sintetizassem todos os elementos que caracterizam sua obra'', comenta Alcir Pécora, professor de Teoria Literária na Unicamp e responsável pela organização dos títulos de Hilda. ''Assim, ''A Obscena'' apresenta elementos poéticos, dramatúrgicos e até da obra pornográfica, enquanto ''Júbilo'' é o primeiro livro de poesia que ela escreve depois de já ter pleno domínio da prosa.''
Pécora vai escrever também a introdução que acompanha cada livro. Com exceção de dezembro e janeiro, eles serão lançados dois a cada mês, em projeto que se prolonga até novembro de 2002. Após a publicação de todos os títulos em separado, serão lançadas as ''Obras Completas'', incluindo um estudo analítico dos livros. ''Seus escritos figuram entre o que de melhor se produziu na literatura brasileira de todos os tempos'', comenta Pécora, que releu toda a obra da escritora para preparar a seleção. O trabalho permitiu que descobrisse detalhes preciosos, como as diferentes influências que marcaram a criação de cada obra. ''Assim, em ''Cartas de um Sedutor'', por exemplo, é possível perceber a forte impressão provocada pela leitura de ''Diário de um Sedutor'', de Kierkegaard.''
Hilda acompanha extasiada o planejamento, mas não consegue abafar sua desconfiança. Afinal, desde 1966, quando, fascinada pelas palavras de Nikos Kazantzakis em ''Carta a El Greco'', ela decidiu isolar-se na Casa do Sol, um sítio próximo a Campinas, seu sofrimento por ser ouvida por tão poucos parecia eterno. Lá, criou uma poesia poderosa, obscura e luminosa, e transformou-o em um lugar onde refletiu sobre a natureza do mundo e do homem, seus desejos e solidão, seus pensamentos sobre a morte, a vida, a loucura, o amor. Mas, não fosse o esforço de alguns amigos, como o editor Massao Ohno, talvez pouco seria publicado.
''Nunca entendi o motivo da minha obra não ter alcançado o grande público'', comenta a escritora que, mesmo não recebendo a devida ressonância, inspirava-se na própria solidão para escrever versos como ''Sou eu esta mulher que anda comigo/ e renova a minha fala e ao meu ouvido/ Se não fala de amor, logo se cala?''. A paixão pela palavra é uma herança querida e doída. ''Meu pai foi a razão de eu ter me tornado escritora'', revela, enquanto admira uma foto de Apolônio de Almeida Prado Hilst, ele também um poeta e que sofria de esquizofrenia, o que a atormentou durante muitos anos.
As fotos, aliás, se acomodam pelas paredes da sala e de seu escritório, na Casa do Sol. Lá estão imagens de sua juventude, quando estudou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e já era uma das mulheres mais bonitas de sua geração, despertando paixões em homens diversos, como Vinicius de Moraes e o ator americano Dean Martin. Estão também fotos de amigos queridos, como Lygia Fagundes Telles.
Mais que a vida mundana, porém, interessava-lhe verdadeiramente a escrita. Hilda tornou-se uma escritora que jamais deixou de pensar nos porquês da vida e da morte. Mesmo fiel à sua religiosidade (''Traço nessa lousa/ O que em mim se faz/ E não repousa:/ Uma idéia de Deus.''), anunciou um ''adeus à literatura séria'' e, em 1990, iniciou uma trilogia erótica (''O Caderno Rosa de Lori Lamby'', ''Contos Grotescos/Textos d'Escárnio'' e ''Cartas de um Sedutor''), com que buscava chamar atenção para sua obra. ''Ela foi injustamente apontada como pornográfica'', comenta Pécora. ''Na verdade, trata-se de uma forma intelectualizada de abordar assuntos injuriosos.''

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